Na tarde desta terça-feira (19), as coordenações da Educação Infantil da Rede Calábria participaram de uma formação voltada ao fortalecimento de práticas educativas comprometidas com a equidade e o enfrentamento ao racismo desde a primeira infância. O encontro aconteceu no Salão de Atos do Centro de Educação Profissional São João Calábria (CEPSJC), em Porto Alegre, reunindo profissionais das 20 Escolas Comunitárias de Educação Infantil (EcEIs) da capital, em um espaço de reflexão e construção coletiva sobre maneiras mais efetivas de se trabalhar representatividade no cotidiano pedagógico.
Conduzida pela historiadora e assessora pedagógica da rede municipal de ensino, Ingrid Oyarzábal Schmitz, a formação de Educação para as Relações Étnico-Raciais (ERER) reafirma o compromisso da Rede Calábria com uma educação humanizada, capaz de impactar realidades sociais por meio do cuidado, da escuta e da valorização da diversidade.

Ao encontro dos valores calabrianos, a iniciativa abordou práticas que promovem o respeito às diferenças, a inclusão e a construção de ambientes educativos mais acolhedores e representativos.
Muito mais do que abordar conteúdos sobre cultura e história afro-brasileira e indígena, a ERER propõe reflexões que contribuem para o pertencimento e o reconhecimento das identidades de todas as crianças em seus processos de aprendizagem.
Neste ano de 2026, completam-se 23 anos da Lei 10.639/03, que altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), tornando obrigatório o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira em todas as escolas do país. Em 10 de março de 2008, a legislação foi ampliada pela Lei 11.645/08, que passou a incluir também a obrigatoriedade do ensino da História e Cultura dos povos indígenas brasileiros.
Esses marcos representam avanços importantes nas políticas públicas educacionais, fortalecendo iniciativas voltadas à valorização da diversidade e ao enfrentamento do racismo nos espaços escolares.
“A criança precisa ter esse conceito fortalecido para que o adulto futuro não tenha essas questões, que por vezes partem da família. Então isso é algo que a gente traz na educação em contexto com eles, trabalhando a importância de ter um envolvimento do todo, tanto na escola quanto com familiares”, afirma Suelen Rochele dos Santos Nunes, supervisora técnica pedagógica da Rede Calábria.
Durante o encontro, Ingrid revisitou a história e a ancestralidade presentes na formação do Brasil, especialmente do povo gaúcho, evidenciando com profundidade como as linhagens africanas e indígenas foram sendo apagadas em um processo histórico de embranquecimento da sociedade brasileira, cujos impactos permanecem até os dias atuais.

A reflexão também abordou a necessidade de desconstruir narrativas construídas sob uma perspectiva eurocêntrica, que historicamente desvalorizou a herança cultural dos povos africanos e originários. Expressões linguísticas, termos reproduzidos no cotidiano e estereótipos que inferiorizam etnias inteiras foram apresentados como exemplos que ajudam a compreender a importância de tratar o tema de forma consciente e responsável nos espaços educativos.
“Essa é uma pauta que precisamos estar fortalecendo na nossa sociedade e principalmente na primeira infância”, afirma Karine Santos, diretora operacional da Rede Calábria.
Mas como transformar essa perspectiva e promover, junto às crianças, uma sociedade mais justa, diversa e antirracista? A resposta está na criação de referências positivas, em todos os espaços, que contribuam para gerar pertencimento e façam com que cada criança possa se reconhecer e se sentir valorizada em sua identidade.
Nesse contexto, os livros infantis desempenham um papel essencial na desconstrução de estereótipos e no fortalecimento das relações étnico-raciais. Ao darem rostos, histórias e protagonismo à diversidade, tornam-se ferramentas fundamentais para ampliar referências positivas e plurais, refletindo, de forma cuidadosa e consciente, sobre aquilo que está sendo levado para a sala de aula.



“Nos momentos de consultoria com a rede comunitária, a gente tem garantido não só a representatividade das populações negras e indígenas, como também feito disso algo transversal dentro da prática pedagógica, para que tenhamos essas articulações em todo e qualquer planejamento da Educação Infantil e da Educação Básica como um todo”, explica a assessora da rede municipal, Ingrid Schmitz.



Para Suelen Rochele, supervisora técnico-pedagógica da Rede Calábria, o trabalho com as relações étnico-raciais precisa fazer parte do cotidiano das escolas, estando presente nas interações e nas vivências construídas diariamente com as crianças. Segundo ela, promover uma educação antirracista vai muito além da realização de atividades pontuais ou de ações concentradas em datas específicas.
“A formação vem reforçando a capacitação dos profissionais que hoje atuam conosco, para que eles também tenham entendimento da importância de trabalhar, dia a dia, todas as questões que possam trazer singularidade para todos os atendidos que a gente acolhe nas escolas, fortalecendo, de fato, o nosso propósito, que a gente não trabalha só a partir de uma lei ou apenas de um currículo”, esclarece ela.
Ao reconhecer as crianças como as “pérolas da Obra” e o centro de toda ação educativa, a Rede Calábria compreende que é desde os primeiros anos da infância que se constroem relações mais justas, humanas, fraternas e respeitosas.
Por meio de um fazer que incentiva a representatividade, o senso de pertencimento e a valorização étnico-identitária, os espaços de aprendizagem tornam-se ambientes de reconhecimento, acolhimento e formação integral para cada criança.
Educar para as relações étnico-raciais é, também, educar para a dignidade, para o respeito e para a construção de uma sociedade onde todas as crianças possam crescer reconhecendo valor em si mesmas e no outro.
Assim, como dizia São João Calábria: “A dignidade humana deve ser respeitada sempre”.




