Todo cuidado com o meio ambiente começa com um ato de amor: educar. Foi no contraturno escolar que o projeto Ação Pela Criação, desenvolvido na Educação Integral de Encantado (RS) e realizado pela Rede Calábria em parceria com a Secretaria Municipal de Educação e Inovação, transformou práticas de consciência ambiental em uma vivência diária para educandos, colaboradores e suas famílias.
Fundamentado nos princípios da JPIC (Justiça, Paz e Integridade da Criação) e na espiritualidade de São João Calábria, o projeto está alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU e despertou nas crianças o interesse por adotar hábitos mais ecológicos e sustentáveis.
A ideia surgiu inicialmente pela Equipe de Formação da Rede Calábria, em Porto Alegre (RS), e encontrou em Encantado um solo fértil para florescer. A Educação Integral no município é desenvolvida no contraturno escolar de três instituições da rede pública: a EMEF Érico Veríssimo, EMEF Batista Castoldi e o CMEE Centro Municipal de Educação Encantado, onde as ações seguem sendo executadas desde 2025.
O projeto reúne colaboradores e beneficiários em propostas que incentivam a reciclagem e a reutilização de materiais como respostas concretas ao modelo de consumo atual, que cada vez mais degrada o meio ambiente.
“O planeta é nosso, é de cada um. Por ser meu, eu preciso cuidar de forma carinhosa também”, destaca Paulo Rosa, da Equipe de Formação.

Junto ao legado deixado por São João Calábria e sua Obra, também está a preocupação em formar consciências comprometidas com a construção de um futuro melhor. Esse compromisso entende que a promoção da dignidade humana também passa pelo cuidado com a natureza, reconhecendo-a como essencial para a preservação da vida.
“Promover a vida é pensar de forma consciente o cuidado com aquilo que a gente recebe”, afirma ele.
Embora a educação ambiental já esteja no DNA da instituição, em seu jeito único de ser e de fazer, foi no município de Encantado (RS) que o projeto Ação Pela Criação ganhou uma forma mais estruturada, com ações contínuas e articuladas ao longo do ano.
A proposta traz oficinas, práticas educativas, desafios mensais e ações permanentes. Um grupo de acompanhamento, composto pelas coordenações e educadoras ambientais, foi fundamental para garantir que as iniciativas fossem executadas e mantidas ao longo do tempo.


Sua base está estruturada nos três Rs: Reduzir, Reutilizar e Reciclar, buscando promover uma cultura de responsabilidade coletiva pelo lar que todos nós partilhamos, o bem comum mais precioso da humanidade, o planeta Terra, também chamado de “Casa Comum”. Esse conceito ganhou grande destaque a partir da encíclica Laudato Si’, publicada pelo Papa Francisco em 2015.
“A nossa base é a questão do cuidado com a Casa Comum, do consumo consciente, tendo como objetivo alcançar os três Rs”, explica Paulo.
Para Paulo Rosa, da Equipe de Formação, a promoção da vida não se limita apenas ao indivíduo, mas ao meio e a tudo o que nele existe.
“Eu vejo como promoção de vida também. Não somente minha, como ser humano, mas também dos outros animais e das plantas. Eles também têm direito de viver nesse planeta. Então isso também é promover vidas”, afirma.
Em alguns territórios, muitas famílias têm na reciclagem sua principal fonte de renda. Por isso, as ações desenvolvidas precisam considerar a realidade de cada comunidade, de modo a complementar essa atividade sem causar impactos negativos ao seu sustento.
Espaços são preparados para a coleta de diversos materiais, como tampinhas plásticas, garrafas PET, lacres, cartelas de medicamentos, pilhas e esponjas de lavar louça. Para objetos maiores, a EMEF Batista Castoldi disponibiliza uma estrutura para receber papelão e outros recicláveis, como latinhas. Somente no ano passado, foram arrecadados mais de 3 toneladas em um trabalho conjunto com a escola.
“Foram toneladas que foram feitas no ano passado. Então, isso tudo são as famílias que entregam para a escola. O bairro também leva até a escola. Então, tem um impacto grande assim com o entorno”, explica Karen Ramos, coordenadora da Educação Integral em Encantado.
Salas de aula contam com lixeiras para separação dos resíduos, confeccionadas pelos próprios educandos, pensadas por eles em todos os detalhes e buscando soluções práticas. Um exemplo a ser citado foi a criação de tampas para os recipientes de lixo orgânico, evitando, assim, a proliferação de insetos.
“A gente lançou a ideia. Precisa ser feita uma lixeira para cada sala. A gente só disse isso. E aí uma turma de adolescentes teve um pensamento que a gente não teve. Eles disseram: ‘O lixo orgânico fede, cria mosquitinhos, então a gente precisa criar uma tampa’. A gente não tinha pensado nisso”, relembra Paulo.
Com a aderência de todos a hábitos sustentáveis, uma meta importante foi conquistada: a redução no uso de copos plásticos. Hoje, é comum que cada colaborador tenha sua própria caneca para encontros internos e eventos das unidades.



Dentro do escopo do projeto, estão presentes também desafios trimestrais e ações especiais. Ao estilo de gincanas e competições, diversos desafios temáticos são promovidos nos espaços, incluindo processos criativos de confecção e de arrecadação de recicláveis para reduzir o consumo de materiais que prejudicam o planeta.
Entre as propostas estão a criação de coletores de tampinhas para uma separação qualificada por cores, chamada de Tampinha Consciente; a diminuição do uso de folhas de ofício a partir da confecção de papel reciclado; e o desafio Plantar e Cuidar, em que, em conjunto com o poder público municipal, está previsto o plantio de árvores na beira do Rio Taquari como forma ecológica de prevenção de enchentes.
“A ideia é levarmos nossa equipe para plantar mudas na beira do Rio Taquari, que foi devastado [pela enchente de 2024]. Não tem quase nada mais lá”, conta Karen Ramos, coordenadora da Educação Integral de Encantado.
As ações ultrapassam os portões das unidades de ensino onde a Rede Calábria atua, sendo compartilhadas com outras escolas do município, onde os educadores também contribuem para que iniciativas de conscientização como essas se propaguem e criem raízes na comunidade.
Envolvendo muitas mãos neste propósito, incluindo famílias e a administração pública municipal, os impactos positivos desses pequenos gestos são potencializados pelo reconhecimento de que somos todos irmãos, filhos de um mesmo Pai. Um dos grandes diferenciais do projeto.
“Essa ação de plantio é desenvolvida em conjunto com a Secretaria Municipal do Meio Ambiente de Encantado. Temos essa parceria com a Secretaria de Educação e a Prefeitura. A relação entre a Rede Calábria e a administração municipal é muito próxima, e muitos projetos são construídos e apresentados em parceria, sendo inclusive pensados pela Secretaria para outras escolas que não oferecem atividades de contraturno”, afirma Paulo Rosa, da Equipe de Formação.
Outras propostas também promovem princípios da economia circular. Na Troca de Livros Solidária, colaboradores compartilham livros que já leram, prolongando sua utilização e permitindo que o conhecimento alcance mais pessoas.
No Brechó Solidário, roupas são arrecadadas e disponibilizadas tanto para a venda, que se reverte em recursos, como para doação a famílias em situação de vulnerabilidade social. Já no Cabide Solidário, se busca atender especialmente adolescentes que necessitam de roupas e calçados para o inverno.
Existem ações permanentes que se destacam de forma especial. Esse é o caso do cultivo de hortas nas unidades. Os educandos participam ativamente de todo o processo de plantio, cultivo, colheita e preparação dos alimentos, que são incluídos na sua alimentação, aproximando-os ainda mais da natureza e promovendo o gosto por uma dieta saudável e equilibrada.
Na Escola Ana Batista Castoldi, os educandos contam ainda com uma Sala Verde, espaço dedicado às práticas de educação ambiental. Ao trabalharem o cuidado com a terra o seu protagonismo também é estimulado.
“Eles plantam na horta da escola, colhem, levam para a cozinha, lavam e comem. Eles vêem o fruto deles. É diferente a adesão ao alface quando a tia só prepara lá na cozinha ou quando são eles que colhem”, explica Karen Ramos, coordenadora da Educação Integral da Rede Calábria.


Em um trabalho realizado coletivamente, o óleo de cozinha usado é recolhido pelas famílias, coletado nas unidades e depois transformado em sabão pelos educandos, sob supervisão e com todos os cuidados necessários para a segurança de todos.
Além do benefício ambiental, ela se relaciona a Economia Solidária em um ciclo sustentável que envolve trabalho colaborativo, planejamento, produção e a comercialização que gera receita para a aquisição de novas mudas para as hortas escolares.
“Esse projeto do sabão, que é feito com azeite, ele entra muito na questão da economia solidária que a gente está trabalhando aqui, porque é isso, é um trabalho de grupo. Então essa questão do cooperativo e autogestão, eles pensam juntos. Quanto que vão fazer cada sabão, cada pedacinho”, afirma ela.
Nas salas de aula, todo papel utilizado, também é reaproveitado. São utilizados em atividades pedagógicas e na confecção dos chamados cadernos de época. Até mesmo eventos como as Festas Juninas possuem uma produção sustentável, com decorações e elaboradas utilizando 100% de materiais recicláveis.


Ao unir educação, espiritualidade e compromisso socioambiental, o projeto Ação Pela Criação demonstra que o cuidado com a Casa Comum começa nas pequenas atitudes do cotidiano, capazes de inspirar mudanças que ultrapassam os espaços educativos e alcançam toda a comunidade.
Em Encantado, a iniciativa segue cultivando não apenas árvores, hortas e ações de reciclagem, mas também valores que fortalecem o respeito e a responsabilidade coletiva com a vida. Com isso, somos convidados a olhar para a criação como um dom recebido da Providência e a assumir, juntos, o compromisso de preservá-la para as gerações presentes e futuras.
Inspirado pelo legado de São João Calábria, o projeto reforça a convicção de que a Providência de Deus se manifesta também por meio do cuidado com as pessoas e com toda a criação. Para São João Calábria, cada ser humano é chamado a ser sinal de esperança e corresponsabilidade no mundo, construindo relações mais fraternas, solidárias e comprometidas com o bem comum. Assim, cuidar da Casa Comum é também viver concretamente os valores calabrianos, reconhecendo na natureza, no próximo e na comunidade a presença do amor providente de Deus.
