Há mais de quatro décadas, os Irmãos religiosos Pobres Servos percorriam as madrugadas de Porto Alegre (RS) em uma kombi, em busca de jovens que viviam nas ruas. O destino era o então Albergue João Paulo II, onde encontravam muito mais do que um lugar para dormir. Lá, encontravam acolhimento, cuidado e a segurança de um ambiente protegido, longe dos perigos das noites escuras e frias.
Esse gesto simples, mas profundamente humano, tornou-se a semente de uma das mais importantes trajetórias de proteção e cuidado de crianças e adolescentes do Rio Grande do Sul. Hoje, em 28 de julho, celebramos uma história construída por milhares de acolhidos, colaboradores, voluntários e parceiros que fizeram desse cuidado uma missão de vida cheia de propósito.
A história começou em 1981, quando a Congregação dos Pobres Servos da Divina Providência aceitou o convite da Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor (FEBEM) para assumir a direção educativa de uma casa que já acolhia meninos em situação de abandono. A Fundação permaneceu responsável pela gestão do serviço, enquanto a Congregação passou a conduzir o trabalho educativo e o cuidado cotidiano.

A chegada da comunidade religiosa no acolhimento institucional aconteceu também como resposta ao apelo feito pelo Papa João Paulo II durante sua visita à capital gaúcha, em 1980, quando chamou a atenção do poder público para uma realidade que a sociedade fingia não enxergar. Foi esse cenário que originou o nome da casa.
“Durante sua visita a Porto Alegre, ele percebeu muitas crianças vivendo nas ruas, engraxando sapatos, cheirando cola de sapateiro e dormindo sob viadutos. Em uma celebração com o povo, ele lançou esse desafio: ‘Alguém ou alguma instituição faça alguma coisa por essas crianças e adolescentes abandonados'”, relata Pe. Cláudio Bianchet.
Em 28 de julho de 1981, a primeira comunidade dos Pobres Servos chegou à casa, localizada na Avenida Bento Gonçalves, 1701. Inicialmente, o atendimento acontecia durante a noite. As equipes percorriam a cidade e acolhiam crianças e adolescentes que tinham como único refúgio as calçadas e os bancos das praças. No abrigo, recebiam alimentação, higiene, descanso e proteção até o amanhecer.

Em 1988, o trabalho ganhou um novo desdobramento com a criação do Centro de Atividades João Paulo II, em Viamão (RS). Além de um lugar para passar as noites, a instituição começou a oferecer atividades pedagógicas, oficinas e acompanhamento durante o dia, indo além do abrigo noturno. Começava ali um trabalho voltado ao desenvolvimento educacional.
A criação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), na década de 1990, mudou o formato do serviço. Com a nova legislação, o acolhimento passou a depender de encaminhamento do Conselho Tutelar ou do Poder Judiciário, e as rondas noturnas deixaram de existir. Foi a partir desse momento que o Abrigo João Paulo II se consolidou como um serviço formal de proteção a crianças e adolescentes.
Em Viamão (RS), ainda nesse período, a Escola Aberta de 1º Grau João Calábria iniciou suas atividades em 1994. As oportunidades para o desenvolvimento integral dos atendidos foram ampliadas, agregando a proposta inspirada nos valores de fraternidade, solidariedade e promoção da vida vividos por São João Calábria.



Em 2002, um novo modelo de atendimento a crianças e adolescentes começou a se consolidar com a implantação das Casas Lares. A inauguração da Casa Pérolas Calabrianas marcou o surgimento de uma modalidade de acolhimento institucional baseada em residências menores, organizadas para reproduzir a dinâmica de um lar. Foi um avanço na humanização do atendimento que, até hoje, é priorizado por oferecer às crianças e aos adolescentes um ambiente de afeto, cuidado, convivência familiar e comunitária, essencial para que possam recomeçar suas vidas.
No ano seguinte, foi criada a República para Jovens. O programa oferecia moradia, alimentação e inserção no mundo do trabalho para aqueles que deixavam as Casas Lares ao atingirem a maioridade, um apoio crucial para desenvolverem sua autonomia e seus projetos de vida.
Entre 2004 e 2012, novas Casas Lares foram inauguradas em Porto Alegre, Alvorada e Viamão. A capacidade de atendimento cresceu de forma significativa, e o serviço chegou a contar com 22 Casas Lares, cada uma oferecendo um ambiente de afeto e pertencimento para centenas de crianças e adolescentes.
A função de Pais Sociais, implementada em 2006, aproximou ainda mais o cotidiano de uma família. Os monitores deram lugar a casais residentes nas Casas Lares, que passaram a ser referência afetiva para os acolhidos. Novos vínculos se construíram, e uma convivência mais saudável, acolhedora e fraterna tornou-se possível.

Expansão da proteção social
Nos anos seguintes, outros novos serviços passaram a integrar essa missão de cuidado e proteção. Em 2012, a Congregação recebeu a doação do espaço ULNA, Uma Luz no Amanhã, em Viamão, destinado ao acolhimento de vítimas de violência e sob ameaça. Já em 2014, o Abrigo Residencial Cisne Branco foi incorporado às atividades, tornando-se porta de entrada para crianças e adolescentes que sofreram violação de direitos e negligência, encaminhados pelo Juizado da Infância e Juventude do município.


A expansão teve continuidade em 2019, com a implantação do abrigo destinado a mulheres vítimas de violência doméstica e de gênero em risco de morte, Casa Girassol, do primeiro Residencial Inclusivo São João Calábria e do serviço Família Acolhedora, que trazia uma outra abordagem no acolhimento de crianças afastadas temporariamente de suas famílias de origem por medida judicial. Em 2020, vieram os Residenciais Inclusivos Raios de Luz e Nossa Senhora Aparecida, e a atuação socioassistencial ganhou ainda mais força.
Atuação integrada que acolhe e promove vidas
Um importante marco dessa trajetória aconteceu em 30 de agosto de 2022, quando a Delegação Nossa Senhora Aparecida dos Pobres Servos da Divina Providência oficializou a integração das atividades do Abrigo João Paulo II à Rede Calábria.
A união fortaleceu a atuação em rede. O alcance da missão de acolher vidas passou por uma grande expansão, e o carisma calabriano seguiu vivo em cada serviço oferecido, com o compromisso de garantir direitos aos mais vulneráveis e fragilizados.
Hoje, essa missão se estende muito além do abrigo. A Rede Calábria impacta diariamente mais de 7,5 mil pessoas por meio da assistência social, da educação e da qualificação profissional, e assim, o legado de São João Calábria segue vivo na promoção da dignidade humana e da transformação social.



Muito antes de percorrer as ruas de Porto Alegre em uma Kombi, o amor aos mais necessitados e a confiança na Divina Providência já haviam dado início a algo maior. Nascia ali uma Obra que perdura através das décadas, reflexo de uma história que aconteceu há 118 anos, em Verona, na Itália.
Quando São João Calábria acolheu o ciganinho abandonado à beira de sua porta e decidiu dedicar sua vida às crianças e aos mais vulneráveis, a mesma semente plantada naquele encontro atravessou continentes, chegou ao Brasil e seguiu dando frutos no coração de cada criança acolhida, em cada comunidade e em cada vida promovida.
Quarenta e cinco anos depois do Albergue João Paulo II, a missão iniciada nas madrugadas de Porto Alegre continua viva. Atualmente, a Rede Calábria mantém 12 Casas Lares em Porto Alegre, três em Viamão e o Abrigo Residencial Cisne Branco, também no município, oferecendo um novo começo a crianças e adolescentes que tiveram seus direitos violados.
“Quanta história bonita foi construída ao longo dessa caminhada! Sinto-me muito feliz e realizada por fazer parte dessa missão como colaboradora. Agradeço, primeiramente, a Deus e a São João Calábria por me permitirem ser uma pequena peça nessa grande engrenagem de amor, cuidado e esperança, assim como todos os meus colegas que, diariamente, dedicam suas vidas a esta missão.” – Jurema Santos, ex-coordenadora administrativa do Abrigo João Paulo II e atual coordenadora adjunta do setor financeiro e prestação de contas da Rede Calábria.
Em comemoração ao aniversário do Abrigo João Paulo II, Pe. Cláudio Bianchet afirmou que a história da instituição evidencia os frutos de uma missão construída com dedicação e confiança na Divina Providência. Segundo ele, o cuidado com os mais vulneráveis permanece como essência da Obra.
“Como é gratificante olhar para trás e perceber que aquela pequena sementinha plantada com muito amor, dedicação e confiança na providência divina há mais 40 anos cresceu e está dando frutos, e dará muitos mais ainda”, afirma Pe. Cláudio.


Somente em 2024, 200 crianças e adolescentes ingressaram nos serviços de acolhimento institucional da instituição. No mesmo período, 48 foram adotados e 75 retornaram ao convívio familiar, resultados que reafirmam o compromisso com a garantia de direitos, o fortalecimento dos vínculos familiares e a construção de novos projetos de vida.
No coração de cada criança acolhida, em cada vínculo reconstruído e em cada sorriso, está o reflexo de um acolhimento humanizado, que promove vidas por meio do afeto. Ao longo dos anos, essa missão encontrou novos caminhos de atuação, ampliando o cuidado também para o acolhimento familiar. Atualmente, o serviço Família Acolhedora dá continuidade a essa história, possibilitando que crianças e adolescentes encontrem o amor, o pertencimento e a segurança de um lar capaz de acolher e ressignificar marcas deixadas por situações de violação de direitos.

“Voltemos o nosso olhar às crianças abandonadas que o Senhor nos confia. Precisamos torná-las bons pais de família, capazes e honestos operários. Com a graça do Senhor temos visto e vemos frutos consoladores em muitos queridos ex-alunos, que formados na Casa honraram a educação que receberam. Quanto a nós, procuremos fazer o possível para que todos se tornem assim. É essa uma das tarefas que recebemos da Providência. Oh, quão nobre é essa tarefa” – São João Calábria