No dia 19 de setembro é celebrada uma missão vocacional que começa pelo coração, mas que se revela por meio do compromisso com os mais vulneráveis na promoção da vida em todos os seus âmbitos. O Dia Nacional do Educador Social é uma data para reconhecer quem escolhe estar presente, olhar para cada pessoa em sua singularidade e enxergar no cuidado com o outro um grandioso propósito de vida.
Nos diferentes projetos e frentes socioassistenciais, a Pedagogia Calabriana se manifesta por meio da aproximação, da escuta, do acolhimento e do caminhar ao lado de seus beneficiários, acreditando que cada encontro pode ser o começo de uma nova história.
Seja no Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV), no Trabalho Educativo, nos Residenciais Inclusivos ou até mesmo no Serviço Especializado de Abordagem Social, o educador exerce uma função de contato direto com inúmeras realidades e fragilidades. Seu papel vai muito além de propor tarefas: é também identificar potenciais, reconhecê-los e contribuir para que cada beneficiário se realize como ser único que é.



A descoberta da vocação muitas vezes leva tempo e acontece por caminhos que não estão nos planos. Natural de Alegrete, a conselheira operacional da Rede Calábria, Laís Almeida, iniciou sua trajetória na instituição como educadora social no Centro de Promoção da Infância e Juventude (CPIJ).
Tudo começou quando se mudou para Porto Alegre com a intenção de cursar uma faculdade. Ainda sem ter certeza sobre a área que queria seguir, sabia que deveria ser algo ligado às exatas. Até que conseguiu ingressar na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde cursou Física.
Ao começar a trabalhar no Laboratório Itinerante da universidade, acreditou ter encontrado seu caminho. O mundo acadêmico lhe encantava, e a ideia era seguir pela pesquisa, com mestrado e doutorado. Mas um convite para dar aulas em um curso pré-vestibular despertou uma nova possibilidade: a educação. Depois, passou a dar aulas no EJA, experiência que a aproximou também da área social. Nesse período, participou de iniciativas para auxiliar financeiramente alunos que precisavam de recursos para continuar estudando.
Foi nesse instante que a Providência a conduziu até o CPIJ. Laís chegou à Rede Calábria como educadora social e passou a atuar como oficineira de numeramento. Ali, precisou se desconstruir e encontrar outras formas de ensinar, compreendendo a matemática para além das fórmulas.
Aos poucos, essa perspectiva mais humana de ensinar a lógica dos números permitiu que Laís compreendesse a profundidade dessa abordagem pedagógica inspirada nos princípios de São João Calábria.
“É trazer aquele conhecimento para a realidade deles, para o dia a dia. Entender que o que eles precisam compreender é o mundo que eles enxergam. A partir disso, fui começando a trabalhar outras questões com eles. Onde é que está a matemática na Restinga? Poxa, está em toda parte”, relata a conselheira operacional da Rede Calábria, Laís Almeida.
Mas levar a matemática para o cotidiano também significava estar disposta a mudar o próprio planejamento. Em uma das atividades que desenvolveu na unidade, ela preparou uma proposta de construção de um aquecedor solar. O projeto estava planejado, os materiais haviam sido providenciados, mas o resultado não foi como esperava.
A turma não se envolveu com a ideia. Por conta disso, teve que voltar atrás e rever sobre a essência daquela atividade. O aquecedor não deveria ser o objetivo final, era apenas o meio. Assim, percebeu que poderia alcançar o mesmo intuito do trabalho em equipe ao desenvolver uma dinâmica mais alinhada com as crianças para explorar medidas, multiplicações e cálculos.

Enxergar a pessoa para além das aparências
Antes de qualquer intervenção, o olhar é o que orienta tudo. Para a Pedagogia Calabriana, ver é enxergar a pessoa para além das aparências, é perceber sinais, seus comportamentos e seus silêncios. É a capacidade de percepção que permite ao educador ver quem está diante dele, através da presença.
Para a conselheira operacional da Rede Calábria, esse olhar começa já na chegada. A acolhida é uma recepção especial das turmas e faz parte do dia a dia de todas as unidades. Segundo ela, esse momento pode revelar muito sobre como a criança está e até mesmo indicar quando algo não vai bem.
“A acolhida é o termômetro. Na acolhida, o educador já tem que estar ali presente, numa sala organizada, sabe? Presente fisicamente para receber a criança. Porque ali tu já percebe muita coisa”, explica.
É nesse exercício de observação que está o fundamento que dá sentido a essa vocação. O educador não está apenas diante de um beneficiário que chega ao espaço, está diante de alguém que traz consigo uma trajetória que requer conexão.
Se colocar no lugar do outro para compreender
A solução para gerar entusiasmo nas crianças, foi se colocar no lugar delas. Elas não queriam saber de aquecedor solar, mas sim medir o ginásio, descobrir suas dimensões e entender aquele espaço com a trena. A matemática estava acontecendo, mas a partir de algo inserido no contexto delas e que partia de uma curiosidade das crianças.
“Eles estão curiosos com o mundo. Não com o aquecedor solar que eu ia fazer. […] Eles estavam certos”, lembra Laís.
A partir daquela experiência, ela passou a trazer o conhecimento para a realidade, encontrando a matemática na própria Restinga, nos dados sobre a população, nas porcentagens, nos gráficos e nas situações que faziam parte daquele microcosmo.
“Mas eu tive que entender que eu precisava adentrar o universo deles. Não eles no meu”, complementa.
Criar possibilidades para despertar potencialidades

Em uma sociedade marcada por necessidades cada vez mais urgentes, o trabalho do educador social está em reconhecer naquela criança, jovem ou adulto, uma pessoa com uma história e potencialidades infinitas que podem ser despertadas quando encontra alguém disposto a estimulá-las.
Anderson Moacir, ensina percussão e capoeira na unidade Ir. Francisco Cipriani há 7 anos, mas antes de ocupar o lugar de educador social no espaço, ele também já esteve do outro lado, e reconhece a necessidade de ser uma referência para eles.


“Os educadores que passaram por mim me deixaram grandes marcas na minha vida e eu quero deixar grandes marcas na vida das crianças também”, conta.
Para Anderson, esse olhar também significa compreender que cada beneficiário se aproxima da atividade de uma maneira diferente. Alguns se envolvem de imediato, enquanto outros precisam de um convite, de uma aproximação diferente ou simplesmente de um espaço em que se sintam à vontade para participar. Por isso, sua prática exige atenção para perceber além da superfície.



“Eu levo pra cá, levo pro movimento. Vamos fazer instrumento aqui, vamos desenhar, vamos pintar, vamos fazer outras rotinas. Através da capoeira é que eu consigo trazer essa criança que muitas vezes não quer participar […] para que ele se sinta junto do espaço e não se sinta excluído”, conta o educador.
Essa forma de abordagem faz parte da rotina. A atenção ao que acontece com cada criança significa compreender que nem sempre é preciso uma grande proposta para produzir um resultado. Muitas vezes, é justamente na forma de acolher e identificar as fragilidades individuais que o educador consegue fazer a diferença.
“Eu acho esse olhar que não julga, mas sim que acolhe a criança do seu jeito, da sua forma, tem um impacto muito grande e significativo. Às vezes um gesto, um abraço, uma atenção, é muito valioso para aquela criança”, esclarece ele.
Perceber necessidades em cada trajetória
Depois de trazer uma nova perspectiva para as atividades, o educador também passa a reconhecer necessidades que, em contextos de vulnerabilidade social, muitas vezes não são verbalizadas. São situações que aparecem nos detalhes da rotina e exigem uma sensibilidade apurada para perceber o que aquela criança está vivendo naquele momento.
Um dia, Anderson se deparou com uma situação que poderia passar despercebida. A tarefa não fazia parte de sua rotina, mas uma pergunta fez com que olhasse para aquela necessidade de outra maneira.
“Hoje de manhã eu estava costurando a mochila de uma aluna, de uma educanda. […] Não faz parte do meu trabalho. Mas será que essa criança vai ter essa mochila? A mãe vai fazer em casa? Às vezes não”, relata o educador social.
Fazer da presença um lugar de cuidado

Depois de ver, inclinar-se, sacudir suavemente e reconhecer, o educador encontra no acolhimento uma forma de transformar a relação com o outro. Na rotina da República para Idosos, o acolhimento está fortemente presente na maneira como o educador social, Luciano de Oliveira, compreende seu trabalho e procura fazer com que cada morador se sinta parte daquele espaço.
“Tu tem que atender as pessoas de uma forma que elas se sintam acolhidas. Por mais que às vezes tenha uma certa resistência da parte delas”, afirma.
A história de Luciano como educador social começou de forma inesperada, a partir de um convite para atuar durante uma Operação Inverno em um albergue para a população de rua. O que inicialmente seria uma experiência de apenas três meses se transformou em uma caminhada de 12 anos de atuação social.
Na Rede Calábria, ele encontrou um novo espaço para esse fazer junto aos mais velhos. Desde dezembro de 2020, atua na República para Idosos (RPI), acompanhando de perto a construção do serviço, iniciado naquele mesmo ano, durante a pandemia. Ao longo de quase seis anos, seu trabalho foi marcado pela proximidade com os moradores e pela construção de vínculos que marcaram sua vida.
No serviço, o objetivo não é apenas oferecer atividades ou atender às necessidades básicas, mas construir um local em que cada pessoa encontre suporte para atravessar momentos difíceis e recomeçar, independentemente da idade.


“Aqui ele vai ter toda uma estrutura voltada para ele […] e o pessoal é bem profissional, mas se envolve para tornar o melhor possível, que ele se sinta em casa”, relata.
Por meio da Oficina de Autocuidado, Luciano percebeu uma forma de reconstruir a autoestima fragilizada dos moradores. Nesses momentos, trabalha aspectos relacionados à higiene e aos cuidados pessoais e até faz o corte de cabelo e barba.
Para ele, esse gesto de amor ao próximo, trás um grande impacto nos moradores. Com o tempo, passaram até a escolher seus cortes, manter a barba aparada e demonstrar maior atenção consigo mesmos.
“É nítido a mudança”, afirma Luciano, ao perceber que práticas como essas também repercutem na autoestima, no humor e na convivência com os demais moradores.
Na realidade do Serviço Especializado de Abordagem Social – SEAS/Ação Rua, isso não é diferente. Aqui, o educador social vai ao encontro dos menos favorecidos que repousam sobre o concreto das ruas da cidade. É preciso escutar e compreender, sem reduzir aquela pessoa à situação que ela vive.
Rubinaldo ‘Naldo’ Dornelles, de 54 anos, atua na instituição desde de 2020. Convidado a compor a equipe, sua primeira atuação foi como amor à primeira vista. Nos encontros, ele ajuda na construção de possibilidades para resgatar os direitos das pessoas em situação de rua, com planejamento para que supere aquela situação e encaminhamentos para assegurar acesso a direitos.
Algo que exige persistência para resgatar vidas e sonhos, um processo que não ocorre do dia para a noite, mas que representa cada verbo calabriano ao longo do percurso.

“Acolher é você entender o que aconteceu, escutar a história dele, respeitar a história dele acima de tudo e, a partir disso, conseguir projetar algumas possibilidades”, explica.
Na rua, Naldo conta que é preciso literalmente se inclinar, sentar no meio-fio ou ficar na mesma altura da pessoa para que o encontro aconteça de igual para igual. A escuta deixa de ser apenas uma ferramenta de trabalho e se transforma em uma forma de valorizar e de reconhecer a dignidade de quem está sendo atendido.
“Acho que o que falta na sociedade às vezes é ter essa visão. Existe uma pessoa, não é um número, ela tem nome, sobrenome, e ela precisa ser respeitada como ser humano”, afirma.
É assim que se consegue compreender onde aquela pessoa está, o que precisa e quais possibilidades podem ser construídas junto com ela.
O Dia Nacional do Educador Social é celebrado uma vez por ano, mas a valorização de quem exerce essa missão acontece todos os dias. São profissionais que vão ao encontro de quem muitas vezes não é visto, chegam onde poucos chegam e permanecem onde, tantas vezes, houve abandono.
Na Rede Calábria, esse jeito de se colocar a serviço do outro se inspira no legado de alguém que dedicou sua existência ao próximo. Em São João Calábria e na confiança na Divina Providência, encontramos uma inspiração que se faz presente em cada uma das milhares de vidas promovidas pela Obra, por meio de princípios que caminham juntos.
Ver é perceber. Inclinar-se é aproximar-se em pé de igualdade. Sacudir suavemente é estimular positivamente. Reconhecer é dar valor às capacidades. E acolher é permanecer presente, livre de julgamentos. No encontro com cada pessoa e cada história, o educador social se torna expressão viva do jeito calabriano de educar.