O Centro de Educação Profissional São João Calábria (CEPSJC) recebeu, nesta quarta-feira (16), o Encontro Técnico Ampliado: Práticas em Família Acolhedora no RS, uma iniciativa realizada pelo Governo do Estado, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Social. Realizado no Salão de Atos da unidade, em Porto Alegre (RS), o evento reuniu cerca de 100 inscritos, além daqueles que acompanharam a programação por meio da transmissão ao vivo pelo YouTube.
Entre os participantes estavam gestores municipais, equipes técnicas de instituições que oferecem o Serviço de Família Acolhedora no Rio Grande do Sul e demais integrantes da rede de proteção, reunidos para partilhar experiências bem-sucedidas dentro da modalidade de acolhimento familiar.
A aproximação entre os diferentes territórios criou uma ponte de diálogo que contribuiu para o fortalecimento dessa política pública humanizada de cuidado e proteção, voltada a crianças e adolescentes que precisaram ser afastados de suas famílias de origem em razão de violações de direitos.


“A importância é justamente poder ampliar, trazer visibilidade para todo o trabalho que está sendo feito no Estado por diferentes municípios. A Rede Calábria se coloca como parceira da Secretaria de Desenvolvimento Social do Estado e compartilhar essas práticas, o que vem sendo feito e tem dado certo, para que todos os demais possam se espelhar e evoluir na execução desse serviço, que é cada vez mais necessário.” Solange Paim, coordenadora do Serviço Família Acolhedora da Rede Calábria.


Dividido em cinco eixos temáticos, o evento contou com a apresentação de vivências de oito municípios na construção do Serviço de Família Acolhedora. Foram relatos de desafios superados e conquistas concretas, que se refletiram em resultados de engajamento e aproximação com as comunidades locais.
Após uma acolhida fraterna realizada pela Equipe de Formação da Rede Calábria, a programação da manhã começou colocando em pauta um dos principais desafios para a continuidade do serviço: a captação de pessoas dispostas a abrir o coração e o lar para se tornarem famílias acolhedoras.
O Eixo 1: Captação e mobilização de famílias acolhedoras teve a participação de Alegrete, que trouxe a importância da relação próxima com o Judiciário, da credibilização e do conhecimento do serviço por meio do relacionamento com os meios de comunicação locais, além do uso de materiais promocionais e das redes sociais como instrumentos de mobilização comunitária.
Entre os pontos destacados para uma experiência bem-sucedida, esteve a importância de compreender os interesses da criança ou do adolescente para articular um núcleo familiar que também considere suas necessidades e características, favorecendo uma adaptação mais adequada.


Para ilustrar esse ponto, foi apresentado o caso de um menino apaixonado por cavalos que foi acolhido por uma família residente em uma região rural.
Para isso, no entanto, é imprescindível fazer essas informações chegarem ao maior número possível de pessoas. A psicóloga Iandra de Oliveira e a assistente social Tatielem de Moura, de Horizontina, citaram a linguagem audiovisual como uma forma de mostrar, na prática, como o serviço acontece, potencializando a compreensão por meio de rostos e vozes que humanizam e dão sentido às histórias.
O desafio está na sensibilização, mas também na clareza das informações sobre o funcionamento do Serviço de Família Acolhedora, esclarecendo dúvidas e diminuindo receios.
Abrindo o Eixo 2: Captação de recursos financeiros para qualificação do serviço, os representantes do município de Alvorada, a psicóloga Juliana Rancich e o assistente social Marcelo Lopes, abordaram uma experiência de ampliação do orçamento por meio da mobilização social, com recursos destinados à capacitação da equipe, divulgação, bolsa-auxílio e outras finalidades.
A experiência também envolveu a captação de recursos internos, como o saldo de dotação do Fundo Municipal de Assistência Social. Foram analisadas modalidades de aplicação e possibilidades de financiamento de projetos, como CONDICA, VEC e Normativas do CONANDA.

De forma estratégica, o município passou de um orçamento de R$ 39.000,00 ao ano para R$ 316.000,00 em 2025. Dentro das ações de divulgação, os recursos foram aplicados em campanhas de outdoors localizados em pontos estratégicos e de grande fluxo da cidade.
Além disso, os representantes destacaram o êxito de uma blitz realizada em parceria com o setor municipal de mobilidade urbana para a conscientização da população.
A programação avançou para o Eixo 3: Estratégias de divulgação e sensibilização da comunidade, onde Gravataí foi representada pela assistente social e chefe de divisão de Alta Complexidade da Criança e do Adolescente, Cristiane da Rosa, e pelo coordenador do serviço, Estevam, que abordaram um aspecto fundamental de como fazer com que a comunidade conheça, compreenda e se sensibilize com a proposta do acolhimento familiar.

Nessa perspectiva, mostraram que mobilização não se trata de esperar, mas de criar caminhos de encontro. Durante suas falas, enfatizaram que a rede de proteção é multiplicadora de possibilidades, permitindo mobilizar quem mobiliza e estar onde a rede acontece.
Como exemplo prático, apresentaram o Família Acolhedora em Movimento, uma iniciativa móvel pela cidade com o intuito de ir até as localidades para falar sobre o acolhimento familiar. Também incentivaram outras instituições a irem além da divulgação do serviço. Na sua partilha, falaram sobre a Naninha Acolhedora, uma forma que encontraram para dar rosto à Família Acolhedora.
“Além de ser um objeto de apego, ela é a cara do serviço. Quem entra no nosso Instagram vê a Naninha Acolhedora falando sobre pertencimento, sobre os critérios para ser uma família acolhedora. Então, além do objeto de apego, ela é um instrumento de comunicação e interação”, contou Estevam.
Após as partilhas, a psicóloga Suzana Pellegrini conduziu uma reflexão com a participação da plateia, aprofundando as questões levantadas ao longo do encontro a partir dos aprendizados compartilhados e dos relatos de experiências e resultados.
No período da tarde, o olhar se voltou para a articulação necessária à realização do serviço. Santa Maria, Taquara e Gramado integraram o Eixo 4: Articulação da Rede Socioassistencial e Intersetorial para o Fortalecimento do SFA, evidenciando a importância da atuação conjunta de diferentes serviços e políticas para o desenvolvimento da modalidade.
O serviço ultrapassa a responsabilidade concentrada em um único equipamento ou política pública, envolvendo diferentes atores no cuidado e na proteção. Por isso, exige articulação para que as necessidades de cada criança e adolescente sejam acompanhadas ao longo de sua trajetória.


Em Santa Maria, por videoconferência, a coordenadora Janaína Procópio relatou os esforços na construção de um fluxo de atendimento para crianças e adolescentes institucionalizados, além da participação ativa em feiras, reuniões da rede e ações de panfletagem que fizeram a diferença.
No âmbito do planejamento, uma das práticas que apresentou bons resultados foi a criação de uma planilha compartilhada, alimentada com o número de vagas disponíveis, facilitando o acompanhamento diante da alta demanda pelo serviço.
Ana Cláudia Piassa, assistente social de Gramado, destacou os primeiros acolhimentos como experiências bem-sucedidas, importantes para apresentar o serviço à comunidade e ampliar a confiança das famílias na proposta.
A programação chegou então a uma discussão sobre situações que demandam estratégias específicas dentro do acolhimento familiar. São Leopoldo e Horizontina apresentaram experiências voltadas ao acolhimento de adolescentes, grupos de irmãos e acolhidos com deficiência, trazendo ao encontro diferentes vulnerabilidades e necessidades encontradas pelos serviços na busca pela preservação dos vínculos.



Embora cada município desenvolva suas próprias estratégias a partir de sua realidade, as experiências compartilhadas ao longo do encontro revelaram desafios que atravessam diferentes territórios. Mobilizar famílias, sensibilizar a comunidade, buscar recursos, articular a rede e construir respostas para diferentes perfis de crianças e adolescentes são questões que exigem diálogo permanente entre aqueles que estão diretamente envolvidos com a política de acolhimento familiar.

É nesse ponto que a realização de um encontro como esse ganha sentido. Uma ideia desenvolvida em um território pode ser a resposta que outro município buscava. Ao colocar diferentes municípios em diálogo, o momento criou condições para que práticas construídas no cotidiano dos serviços fossem conhecidas, discutidas e ressignificadas a partir do contexto de cada localidade.

Ao reunir profissionais, gestores e equipes que atuam diretamente nos Serviços de Acolhimento em Família Acolhedora, o Encontro Técnico Ampliado promoveu um espaço de escuta, troca e fraternidade, colocando diferentes experiências a serviço de um propósito comum. O cuidado e a proteção das crianças e adolescentes, as Pérolas da Obra.
A iniciativa possibilitou olhar para aquilo que vem sendo construído desde o início do serviço e deu visibilidade a conhecimentos e experiências que podem contribuir para a qualificação do acolhimento familiar no Rio Grande do Sul. Afinal, quando aquilo que aprendemos no caminho é partilhado, ele pode também ajudar outros a seguir adiante e promover vidas pelo acolhimento.
