Um quarto preparado, um berço montado, a mesa posta e uma rotina que se reorganiza para receber quem mais precisa. É assim que começa a história de cada família que participa do Serviço de Acolhimento em Família Acolhedora (SFA), que hoje completa 7 anos sendo desenvolvido pela Rede Calábria, em parceria com a Secretaria Municipal de Assistência Social (SMAS) de Porto Alegre (RS).
A iniciativa oferece acolhimento temporário em ambiente familiar para crianças e adolescentes que precisaram ser afastados de suas famílias de origem por determinação judicial, em razão de situações de violação de direitos ou negligência.
Nesse contexto, o cuidado, a convivência e o afeto tornam-se fundamentais para que um novo capítulo possa ser escrito. Ao abrir as portas de casa, as famílias compartilham sua rotina e oferecem proteção, segurança e pertencimento durante um dos momentos mais delicados que poderia ocorrer na vida de uma criança: o rompimento de vínculos.
A partir desse gesto de solidariedade, quem escolhe acolher, é transformado junto com quem é acolhido. A modalidade permite que elas vivenciem um ambiente de afeto e proximidade enquanto cada caso é acompanhado pela rede de proteção e pelo Poder Judiciário.
O acolhimento tem caráter provisório, com uma duração prevista de até 18 meses. Durante esse período, toda a rede atua para que a criança ou o adolescente possa retornar à família de origem. Quando isso não é possível, inicia-se o processo de encaminhamento para adoção.


Hoje, o acolhimento familiar é reconhecido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) como uma modalidade prioritária de acolhimento. O reconhecimento não é por acaso. Estudos nacionais e internacionais demonstram que a convivência em um ambiente familiar favorece o desenvolvimento emocional e afetivo, especialmente na primeira infância.
Apesar disso, ainda representa uma pequena parcela dos acolhimentos realizados no Brasil. Em Porto Alegre (RS), o serviço é relativamente recente, tendo sido implementado em 2019. Para ampliar esse cenário, existe uma meta nacional de expansão até 2027, o que exige que mais municípios fortaleçam seus programas e que um número cada vez maior de famílias se disponham a participar.
Na capital gaúcha, atualmente, há 15 crianças acolhidas em núcleo familiar e um total de 823 acolhidos em instituições. Embora a parceria entre a Rede Calábria e o poder público tenha capacidade para realizar até 20 acolhimentos simultâneos, seriam necessárias cerca de 40 famílias ativas para atingir essa meta.
Isso porque, ao final de cada acolhimento, as famílias passam por um período de descanso, reorganização e preparação antes de estarem aptas a receber uma nova criança.
No Rio Grande do Sul, o município de Santo Ângelo é referência estadual, tendo realizado a transição para a modalidade entre 2009 e 2010.
Nem sempre a decisão de se tornar família acolhedora passa por um planejamento, ela nasce de uma vontade genuína de compartilhar muito mais do que uma morada temporária. É um chamado que vem do coração. Para Christianne Hoffmann, foi isso que impulsionou a sua tomada de decisão.
Após acordar durante a madrugada, ao sonhar com sua casa repleta de crianças correndo pela sala, ela sentiu uma estranha sensação que pulsava em sua alma. Sem conseguir voltar a dormir, pegou o celular e, ao navegar pelas redes sociais, se deparou com uma publicação sobre o Família Acolhedora da Rede Calábria.

Curiosa com aquela estranha coincidência, pesquisou sobre a iniciativa e conheceu outras histórias. Naquela mesma madrugada contatou a instituição via Instagram, para na manhã seguinte receber uma resposta convidando-a para conhecer melhor o serviço.
Embora nunca tivesse ouvido falar sobre, Christianne conta que o desejo de cuidar do outro já fazia parte de sua vida. Envolvida há anos com causas sociais, percebeu que aquilo que tinha de mais valioso deveria ser compartilhado.
“Eu comecei a perceber que eu tenho muito. E tudo que eu tenho eu precisava dividir. Não é muito de bens materiais. É muito de amor, de cuidado e de carinho”, relata ela.
Para Christianne, a decisão nasceu justamente deste sentimento, e manter esse desejo de doar o amor que lhe transbordava a alma somente para si, seria egoísmo demais.

Não demorou muito após a sua inscrição para que viesse o primeiro acolhimento. Enquanto buscava a filha na escola, Christianne recebeu um telefonema da equipe técnica. A notícia inesperada deixou ela e suas filhas, Anita e Alana, tomadas pela empolgação.
“Na mesma hora eu tive certeza que seria sim a minha resposta para recebê-la. E as minhas filhas entraram no carro e eu fiz uma mímica e elas falaram: ‘Sim, sim, sim’. Todo mundo ficou muito feliz”, relata ao se lembrar daquele dia.
Fraldas, mamadeiras e um enxoval improvisado foi preparado pela família com muito amor e dedicação para a chegada do bebê. Apesar da ansiedade e expectativa, a adaptação foi mais tranquila do que esperavam. A menina, de 9 meses, finalmente havia chegado em seu lar.
“Os dias acontecem com tanta tranquilidade. Ela entrou na rotina da nossa casa com muita facilidade. Tudo acontece de forma natural”, conta Christianne.
O maior aprendizado que essa vivência de cuidado está lhe proporcionando, segundo ela mesma, está no fato de que o amor compartilhado se multiplica e retorna.
“O que mais nos surpreende é com que intensidade o amor que a gente está dando para ela está sendo retribuído para nós”, diz emocionada.
A experiência também transformou a rotina das filhas. A mais velha conta que o desejo de ter uma irmã já fazia parte das conversas em casa.
“Eu já falava pra mãe há muito tempo, muito tempo mesmo, que eu queria ter uma irmã”, relembra Alana. Hoje, ela também celebra o vínculo construído com a bebê. “Eu descobri que ela, na verdade, gosta de nós três igual. Comigo ela ri, com a Anitta ela se acalma e com a mãe ela é os dois”.
Um dos maiores receios de quem conhece o programa, está na preocupação em não se apegar, ter consciência de que o período de acolhimento é temporário. Ao ser questionada sobre o vínculo criado e como será a despedida, ela responde com convicção que o objetivo nunca foi evitar o apego.
“Muitas pessoas me perguntam como eu vou fazer. E eu respondo que é justamente o contrário. A gente precisa se apegar”, afirma Christianne.
A coordenadora do Serviço Família Acolhedora da Rede Calábria, Solange Paim, destaca que esse sentimento, muitas vezes visto como um obstáculo por quem pensa em ingressar, é justamente um dos pilares do acolhimento.
“O que a maioria das pessoas vê como um problema, que é o apego, na verdade é a solução para aquela criança”, explica ela.
Ela esclarece que esse vínculo é o que permite que ela volte a confiar, se sinta protegida e experimente uma convivência familiar marcada pelo cuidado, aspectos fundamentais para o seu desenvolvimento e para a reparação das violações vividas.
Mesmo como marinheira de primeira viagem no serviço, Christianne compartilha da mesma perspectiva. Quando o momento da despedida chegar, ela afirma convicta que a missão assumida pela família estará cumprida.
“A gente precisa demonstrar amor e ensinar também a criança a voltar a amar e confiar em alguém”, complementa ela.
Apesar de acreditar que era um chamado para sua família, Christianne conta que chegou a pensar em esperar mais um pouco antes de abrir as portas de casa para receber uma criança. Após um período de reflexão e oração, decidiu seguir em frente. Hoje, afirma que não se arrepende da escolha.
Ao longo de toda a caminhada, desde a habilitação até o acolhimento da bebê, o acompanhamento próximo das assistentes sociais e psicólogas da Rede Calábria foi fundamental para que ela e sua família se sentissem seguras e acolhidas em cada etapa do processo.
“A equipe técnica sempre foi muito presente e é até hoje. Se precisar de uma emergência, elas vão estar disponíveis. Estão junto”, explica ela sobre sua experiência com o suporte proporcionado pela instituição.
O serviço não é realizado de forma isolada com as famílias. Segundo a coordenadora Solange Paim, todo o processo acontece lado a lado com a equipe técnica, que acompanha cada etapa, e constrói junto às famílias, estratégias voltadas às necessidades individuais dos pequenos.
“É um trabalho de muitas mãos para também poder proporcionar o melhor para as crianças”, afirma Solange ao falar também sobre os encontros frequentes que acontecem no CEPSJC, um momento de partilha de vivências entre os participantes.
“Tem as rodas de conversa que a gente faz, que são muitos momentos de troca, de experiências, de sentimentos que perpassam também. Sem contar o acompanhamento da equipe técnica, que enquanto ela está acolhendo e mesmo depois faz visitas também para poder apoiar essa família”, relata.
A equipe consiste de coordenação, psicóloga e assistente social, que além de realizar o acompanhamento, analisa o perfil ideal de criança que melhor se adapta a realidade daquele núcleo familiar que será acolhida.


Ela explica que a escolha da família para cada criança é construída considerando a realidade e as possibilidades de cuidado de cada lar. O processo conjunto também ocorre no momento de desligamento da criança. Toda transição é feita de forma gradual e as decisões são compartilhadas.
“A família acolhedora acompanha, ela sabe de todas as etapas, que a gente já está trabalhando como possibilidade de retorno”, explica a coordenadora.
Além disso, o serviço possui um grupo no WhatsApp, onde a dinâmica segue a mesma lógica dos encontros presenciais, onde podem relatar sentimentos, desafios e trocarem informações com outras famílias acolhedoras mais experientes.
Os requisitos para ingressar no programa não são excludentes, reconhecendo a diversidade de configurações familiares existentes nos tempos atuais. Tanto casais heteroafetivos como homoafetivos podem se candidatar, assim como também pessoas solteiras, viúvas ou divorciadas.
Basta ser maior de 18 anos, residir em Porto Alegre, não estar inscrito no Cadastro Nacional de Adoção e contar com a concordância de todos os membros da família, assim como ter um ambiente familiar estável e livre de situações que comprometam o cuidado.
Quando Joveni Pereira da Silva, de 60 anos, conheceu o Família Acolhedora ela já carregava consigo uma vontade muito antiga de cuidar. Foi em um domingo à noite, ao assistir uma reportagem exibida no Fantástico que descobriu uma forma viável de transformar o seu desejo em ação.
Com o auxílio de sua filha, entrou em contato com a instituição e, desde então, já são dez acolhimentos vividos dentro de sua casa, cada um com uma história, uma necessidade e uma forma diferente de construir vínculos.
Ao longo da sua vivência de cuidado, Joveni aprendeu que não existe uma única fórmula para acolher. As crianças não são iguais, elas chegam com uma bagagem que exige a compreensão de suas fragilidades.
A experiência fez com que ela desenvolvesse uma atenção maior aos sinais dos bebês e às necessidades de cada um. “A gente vai aprendendo no dia a dia”, conta.
“Com os bebês é mais tranquilo. Se ele está chorando, com dor de barriga ou alguma coisa assim, tu dá um colinho e acalma. Não precisa mais nada”, complementa Joveni.

Existem histórias que permanecem de maneira especial na memória. Uma delas é a de Miguel, que chegou ainda pequeno e passou a conhecer, na casa de Joveni, uma rotina familiar que até então não fazia ideia que fosse possível.
Mesmo anos depois, já vivendo com sua família adotiva, retornou para uma visita. Imediatamente reconheceu os espaços, perguntou pelo cachorro e foi até o quarto onde costumava ser seu.
Para Joveni, aquele reencontro mostrou que aquilo que havia sido construído durante o acolhimento também havia deixado uma marca afetiva na vida do menino, ressignificando um momento traumático.


O vínculo não termina necessariamente quando a criança deixa a casa e a família que a acolheu. Algumas continuam enviando fotos, contando novidades e até mesmo se vêem frequentemente. Isso também faz parte de um processo de transição essencial para a criança. É algo trabalhado para que a interrupção não seja brusca e gere mais danos.
Joveni acompanha de longe o crescimento das crianças que um dia fizeram parte da sua rotina, mas guarda com muito carinho cada vida que passou por ela, encontrando nesses pequenos gestos, uma confirmação do sentido de acolher. “Tu sempre vê uma evolução”, afirma.
Depois de dez acolhimentos, ela continua enxergando cada chegada como uma oportunidade única.
“Mesmo que a gente pense assim: ‘Ah, é só uma criança’, de um em um, a gente vai fazendo a diferença”, explica.
A partir da sua vivência no serviço, aprendeu que o vínculo não precisa ser visto como um obstáculo para deixar a criança partir. Pelo contrário, para ela, é justamente o afeto construído no dia a dia que torna possível oferecer segurança e cuidado durante o tempo em que a criança está sob sua proteção. Por isso, quando fala sobre o medo de se apegar, ela não pensa em distância, mas em disponibilidade.

“A gente tem que estar disposta a amar essa criança. Porque se tu consegue isso, tu consegue amar a todos eles e consegue se sentir feliz”, afirma Joveni.
É no espírito do amor que transforma que celebramos estes sete anos do Serviço de Acolhimento em Família Acolhedora, expressão viva daquele gesto que marcou para sempre a vida de São João Calábria e que, pela Divina Providência, continua alcançando e tocando tantas histórias.
Acolher possui um profundo significado. É abrir o coração e a própria casa para oferecer cuidado, segurança, presença e esperança. É colocar-se a serviço do outro e permitir que, por meio de gestos concretos, a Providência se faça presente. Nesta trajetória, celebramos cada família que abriu suas portas, cada vínculo construído e cada história que encontrou no acolhimento um espaço de proteção, cuidado e novas possibilidades.
“A grandeza das ações depende unicamente da medida do amor com que são feitas” – São João Calábria