Há seis anos, a Rede Calábria, em parceria com a Secretaria Municipal de Assistência Social (SMAS) de Porto Alegre, iniciou mais um capítulo da missão de “Acolher promovendo Vidas”. Inaugurada em 8 de outubro de 2020, a República para Idosos oferece acolhimento a pessoas idosas em situação de vulnerabilidade social. Ao longo dessa trajetória, tornou-se um espaço de pertencimento, fortalecimento da autonomia e reconstrução de vínculos, onde cada pessoa encontra escuta, respeito e apoio para construir novos caminhos.
Na República para Idosos, a missão da Rede Calábria de “Acolher promovendo Vidas” se concretiza na escuta de cada história, no respeito às escolhas e no apoio para que os moradores fortaleçam sua autonomia. Inspirado no legado de São João Calábria, o trabalho reconhece a dignidade de cada pessoa e suas possibilidades de construir novos caminhos, em qualquer etapa da vida.
No ano de 2022, o Censo do IBGE apontou Porto Alegre como a capital brasileira com o maior índice de envelhecimento. Naquele período, eram 137 pessoas com 60 anos ou mais para cada 100 pessoas de 0 a 14 anos.
Esse cenário também revela os desafios que acompanham o envelhecimento. Entre 11 de março de 2024 e 27 de agosto de 2025, um levantamento realizado pelo Centro de Referência em Direitos Humanos de Porto Alegre registrou 2.411 atendimentos, sendo 766 relacionados a pessoas idosas.
Entre eles, estavam 243 casos de acesso precário a políticas públicas, 81 de exclusão digital, 66 de violência, 61 relacionados à situação de rua e 44 de negligência ou abandono, além de 250 casos classificados como outras violações de direitos.
É nesse contexto, em que se torna cada vez mais urgente ampliar os cuidados e a proteção à pessoa idosa. Sob a luz do legado de São João Calábria, a República para Idosos mostra que o acolhimento também passa pela possibilidade de reconstruir vidas, recuperar vínculos e até mesmo construir novos, é trilhar um caminho de resgate de sonhos.

O serviço acolhe pessoas com 60 anos ou mais, com independência para as atividades da vida diária, em situação de vulnerabilidade e risco social, com vivência de rua ou vínculos familiares e comunitários fragilizados ou rompidos. Atualmente, são 23 idosos atendidos, em um acompanhamento que também busca viabilizar o acesso à renda, a benefícios e aos demais serviços públicos, conforme as necessidades de cada pessoa.
A proposta surgiu como uma inovação na política de assistência social. Na época de sua inauguração, Porto Alegre já contava com repúblicas voltadas a jovens adultos egressos de serviços de acolhimento institucional para crianças e adolescentes. Já os albergues, que atendiam a população em situação de rua, não faziam distinção por faixa etária. Nesse contexto, pessoas idosas ficavam mais expostas a situações de violência, extorsão e outras violações.
A criação da República partiu da necessidade de olhar para as particularidades do envelhecimento e para as necessidades que surgem nessa etapa da vida. Por isso, o acolhimento foi pensado não apenas como uma forma de proteção, mas também como um espaço para promover o bem-estar, a autonomia e o direito à convivência.

De caráter provisório, a principal diferença dessa modalidade de acolhimento está em atender pessoas idosas com maior grau de independência. Funciona como uma moradia compartilhada e as atividades da vida diária são organizadas junto com os próprios residentes.
Os moradores participam da construção das regras de convivência, da organização da rotina e das decisões sobre a casa. Nas assembleias, encontram espaço para expressar necessidades, apresentar propostas e buscar soluções coletivas. Essa participação fortalece o exercício da cidadania e o reconhecimento de que suas opiniões e escolhas têm valor.
Na República, elas podem ir e vir, respeitando o horário de retorno às 20 horas. O objetivo é fortalecer suas capacidades, autossuficiência para atividades do cotidiano, em um local que possibilite a construção de novos vínculos comunitários e afetivos.
Muitas são as vulnerabilidades presentes nas histórias dos acolhidos, que vão desde o abandono, o isolamento social, a perda de moradia e a insuficiência de renda até a ruptura com familiares.
“As trajetórias revelam a dor da invisibilidade social e da perda da identidade, mas existe também em comum a busca latente por pertença e por uma nova chance de recomeçar”, explica Carolina Fonseca Raymundo, coordenadora da República para Idosos da Rede Calábria.
Diante de realidades tão difíceis, o serviço conta com educadores, assistentes sociais, psicólogos e coordenação técnica. Oficinas e atividades diversas são pensadas especialmente para atender demandas que são observadas para que possam retomar a autoestima, desenvolver habilidades, aprender algo novo e também mostrar que nunca é tarde para recomeçar.
Segundo a coordenadora do serviço, essa transição é facilmente perceptível entre os idosos. O que inicialmente pode ser visto como uma participação motivada pelo dever de cumprir uma atividade, aos poucos se transforma na compreensão de que o envolvimento de cada um contribui para o bem-estar coletivo, para a convivência e para a promoção da cidadania e de um envelhecimento ativo. Quanto às propostas, Carol ressalta:
“Elas vão muito além do lazer passivo. Incluem oficinas de letramento, inclusão digital, estímulo cognitivo, convivência comunitária, assembleias semanais e projetos culturais. As propostas atuais buscam dar voz às preferências e aos desejos deles, estimulando a autonomia cognitiva e o protagonismo”, explica a coordenadora.
O local, que possui quatro quartos, oito banheiros, refeitório integrado com a cozinha, sala de estar e sala de atendimento da equipe técnica, também conta com um pátio amplo para atividades ao ar livre.
A experiência da República para Idosos traduz, no cotidiano, o chamado calabriano de fazer da caridade o princípio que orienta nossas relações e nosso modo de cuidar. Ao valorizar a participação dos moradores, respeitar suas escolhas e estimular sua autonomia, o serviço reconhece em cada pessoa a sua dignidade e sua capacidade de contribuir para a vida em comunidade. Uma maneira de viver aquilo que São João Calábria acreditava:
“Recomendo-lhes muito a caridade. Reine soberana em seus corações. A nossa caridade seja sobrenatural, seja universal, que ama a todos sem distinção alguma, mas especialmente os mais pobres, os mais abandonados, os velhos, os doentes, os pecadores. Esses são as pérolas, das quais deve enriquecer-se e as quais deve buscar a nossa Obra.” – São João Calábria
No entanto, o acolhimento não se resume ao espaço feito de alvenaria. Ele acontece na presença humana de quem está disposto a escutar e caminhar junto com os idosos nesse processo de recuperação. Na República, educadores que estão desde os primeiros passos do serviço carregam consigo parte dessa história e das muitas trajetórias que, ao longo dos anos, encontraram ali um ponto de partida para um novo capítulo em suas vidas.



Eduardo Corrêa da Silva atua como educador social e está na República desde o início de 2022. Antes disso, iniciou o trabalho social em 2015, em um albergue, acompanhando pessoas em situação de rua. Depois, atuou no Centro POP, realizando oficinas e acompanhamentos, até que a Divina Providência o levou à República para Idosos.
“Comecei a trabalhar acompanhando com eles as rotinas do dia a dia, consultas médicas, acompanhando as agendas deles, medicação e consultas. E aí comecei a fazer oficina.”
O educador explica que as atividades são sempre pensadas para atender alguma necessidade observada e trazida por eles. Foi assim que surgiu o “Bê a Bá Digital”. Uma oficina de letramento nas novas tecnologias que tem o intuito de apresentar para os residentes ferramentas e funcionalidades de dispositivos móveis e computadores.
“Muitos não tinham acesso e não tinham conhecimento de usar o aplicativo do Uber, por exemplo. Estão tendo agora. Não só o aplicativo do Uber, como também o aplicativo Moovit, para saber o horário dos ônibus” , conta ele.



Junto a essa proposta que acompanha os tempos atuais, Eduardo também introduz a familiaridade com a tecnologia por meio de jogos tradicionais adaptados para o digital como dominó, carteado e jogo da memória.
Para ele, ensinar também é acompanhar de perto cada pequena conquista. Mas a grande alegria está em ver um acolhido reencontrar sua família e poder voltar para casa. São momentos que mostram, para Eduardo, que o trabalho realizado na República é crucial para devolver a esperança.
Desde o início, o educador social, Luciano de Oliveira, também atua no serviço. Ao longo de seis anos, viu moradores chegarem com histórias diferentes, alguns com a autoestima fragilizada, sem vontade de aprender ou a cuidar de si.

Mas também acompanhou mudanças que começaram pequenas, e que fizeram toda a diferença com o tempo. É dessa convivência diária que ele fala quando tenta explicar o que significa ser educador social na República.
“Nosso trabalho aqui é motivar eles, tentar passar para eles que a vida continua. Tem muita coisa, muita renovação que eles podem aproveitar”, explica.
Na Oficina de Autocuidado, ele realiza cortes de cabelo e barba e também trabalha cuidados relacionados à saúde e à higiene, incentivando os moradores a desenvolver hábitos que contribuam para o bem-estar e para a qualidade de vida no dia a dia.
Luciano também guarda na memória relatos que mostram como o trabalho desenvolvido na República pode conduzir para um renascimento. Ele conta sobre um morador que, aos poucos, foi recuperando sua autonomia.
“Ele se organizou, arrumou um emprego. Começou trabalhando como freelance. Depois, arrumou um emprego fixo e alugou um espaço para ele morar. Então isso aí estimula. Tu vê que dá resultado. É um impacto muito grande”, conta ele.
Essa foi uma de tantas histórias que mostram como, por trás de cada beneficiário, existe uma vida que pode ganhar novos sentidos quando encontra acolhimento, cuidado e alguém disposto a caminhar junto. É também o que revela a trajetória de Silvio José Padilha, de 61 anos. Ex-acolhido, ele chegou ao serviço em um momento em que, como conta, já não enxergava caminhos para seguir.
“Eu cheguei aqui com uma perna quebrada, eu tinha quebrado o fêmur, sem perspectiva, perdido, sem chão”, lembra.
O sentimento de desamparo e a fragilidade física haviam tirado suas esperanças, mas no espaço encontrou o apoio necessário para se reerguer aos poucos. A recuperação da saúde veio acompanhada de novas perspectivas e, com o apoio da equipe, ele voltou ao mercado de trabalho.
Hoje, ele celebra a conquista de uma carteira assinada e deu mais um passo em direção à autonomia, com a expectativa de conquistar seu próprio espaço por meio do auxílio-moradia.
“Quando eu cheguei aqui, eu conheci o pessoal, fui muito bem acolhido e ainda sou bem acolhido por eles, porque eles me mostraram que aquilo que estava passando na minha vida era um momento, que isso iria passar, que um dia eu estaria bem, que eu ia conseguir retornar, me reerguer novamente”, relata ele.

Assim como a trajetória de Silvio, outras histórias revelam conquistas construídas com acolhimento e apoio. Esses avanços assumem diferentes formas: acessar um benefício, utilizar o transporte com mais segurança, retomar o autocuidado, fortalecer relações ou participar das decisões da casa. Cada percurso é acompanhado respeitando o ritmo, as condições e as escolhas de cada pessoa idosa.
Em um grande momento de confraternização, todos celebraram uma trajetória marcada por vidas transformadas pela Divina Providência, por meio de um serviço que enxerga cada pessoa em sua singularidade, reconhece e valoriza suas experiências e histórias de vida e acredita na construção de uma sociedade mais humana e fraterna.
A festividade começou com uma homenagem a São João Calábria. Em um cortejo, os moradores entraram no salão levando um quadro do fundador, uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, uma vela e o farol, símbolo da missão calabriana que ilumina caminhos possíveis.


Após esse momento, os moradores aproveitaram com muita dança e alegria. Ao som de pagode, acompanharam o ritmo do cavaquinho dos integrantes da Equipe de Formação, em uma apresentação ao vivo que animou o encontro.


O evento reuniu colaboradores, equipes técnicas, coordenações, membros do Conselho Operacional e gestores da Rede Calábria. Além dos discursos emocionados e da participação do Pe. Gustavo Bonassi, também partilharam a palavra William Dutra, membro do Conselho Operacional, e Ricardo Ferreira, conselheiro e coordenador da Equipe de Formação. Representando o Núcleo de Acolhimento Idoso da Secretaria Municipal de Assistência Social (SMAS), estiveram presentes a assistente social Renata V. Klein Dias e o enfermeiro José Ricardo Bolina.



Celebrar os seis anos da República para Idosos é reconhecer as trajetórias dos moradores e agradecer às equipes e aos parceiros que constroem esse trabalho diariamente. Em parceria com a Secretaria Municipal de Assistência Social, a Rede Calábria reafirma sua missão de “Acolher promovendo Vidas”, contribuindo para que pessoas idosas tenham seus direitos respeitados, suas vozes ouvidas e apoio para construir caminhos com dignidade e autonomia.