Desde sua fundação, o Centro de Promoção da Infância e da Juventude vem marcando gerações com o propósito de oferecer um espaço de acolhimento, educação e promoção da vida. Após meio século de existência, o carinho e o cuidado dedicados ao longo do tempo se refletem em um profundo sentimento comunitário de gratidão.
O Centro de Promoção da Infância e da Juventude (CPIJ), atividade que integra a Rede Calábria, celebra seus 50 anos de atividades neste domingo (8). O espaço, localizado no extremo sul de Porto Alegre (RS), no bairro Restinga, atende milhares de crianças e adolescentes, proporcionando um ambiente de acolhimento, cuidado e transformação social. Por meio de projetos educacionais e socioassistenciais, o local traz consigo todo o carisma calabriano: o olhar e a escuta atenta, a proximidade e o afeto compartilhados diariamente. Assim, vive, na prática, a missão e o ideal deixados por São João Calábria.
Para entender o CPIJ, é preciso conhecer os valores e princípios em que Pe. Calábria acreditava e que cultivou por toda a sua vida. A solidariedade e o espírito de fraternidade sempre guiaram o fundador. Sua fé era vivenciada ao estar ao lado daqueles que mais necessitavam. Era um “Evangelho Vivo”, com um apreço especial pelas crianças, as quais reconhecia como as “Pérolas da Obra”.
Em sua visão, marcada pelo amor ao próximo e pela caridade, caminhou junto a elas, acolhendo e provendo as condições necessárias para que se desenvolvessem em sua plenitude. O CPIJ reflete esse legado, sendo muito mais do que um simples espaço de convivência e aprendizado. Oferece respeito, pertencimento e reconhecimento da dignidade humana onde, até então, muitas vezes existem apenas o abandono e a invisibilidade social.
A partir da chegada dos missionários da Congregação dos Pobres Servos da Divina Providência ao Brasil, em Porto Alegre, no ano de 1961, os ideais de São João Calábria começaram a se estabelecer na região. Confiantes na ação da Divina Providência, Pe. Gino Gatto, Pe. Antônio Leso e Ir. Aldo Farina deram os primeiros passos de uma presença missionária marcada pela fé, pelo acolhimento e pelo compromisso com os mais pobres, “os invisíveis” como falava Pe.Calábria. Aos poucos, essa presença foi se multiplicando por meio de iniciativas socioassistencias, educativas e pastorais, tornando-se um sinal concreto dos desígnios de Deus.
Durante a década de 1960, a capital gaúcha passou pela implantação do programa habitacional “Remover para promover”, conduzido pela Prefeitura. A iniciativa foi apresentada pela gestão pública da época como um processo de modernização, higienização e reordenamento urbano, voltado à execução de grandes obras viárias e à valorização imobiliária. Na prática, isso implicou a remoção de assentamentos informais da área central e a realocação de famílias de baixa renda para regiões mais afastadas dos grandes centros urbanos, onde passaram a viver em condições mais precárias e com menor acesso a serviços e infraestrutura.
Nesse contexto, em 1967, surgiu a Vila Restinga, para onde foram encaminhadas inúmeras pessoas desapropriadas de seus locais de origem. A formação da comunidade esteve diretamente ligada a esse processo de remoções e reassentamentos em áreas periféricas, contribuindo para o agravamento de vulnerabilidades sociais e para a consolidação de um território marcado, desde a sua origem, por graves problemas estruturais.

Para melhor acomodar o trabalho das diversas atividades pastorais e ritos litúrgicos realizados pelos religiosos com as famílias, foi criada, no dia 1º de maio de 1971, a Paróquia Nossa Senhora da Misericórdia. Lá, pequenos grupos de fiéis se reuniam em momentos simples e fraternos, partilhando a vida, as alegrias e os desafios das famílias à luz do Evangelho.
A paróquia também contava com atividades de Grupos de Jovens que, além de se reunirem para oração, prestavam ajuda aos mais necessitados. Enquanto isso, o movimento “A Cruzada” proporcionava momentos de formação religiosa, juntamente com atividades lúdicas de recreação para todos.

Assim, pela proximidade com as famílias, os religiosos puderam identificar e compreender suas reais necessidades. À medida que crescia o número de frequentadores e o vínculo com a comunidade se fortalecia, foi construída a igreja matriz da Paróquia Nossa Senhora da Misericórdia. Alguns anos mais tarde, o pátio da igreja veio a abrigar a primeira atividade social organizada pela Congregação dos Pobres Servos da Divina Providência na Restinga, que funcionava dentro de um velho bonde adaptado.

Diante das dificuldades enfrentadas por trabalharem em locais muito distantes de suas casas, muitos pais acabavam deixando os filhos sozinhos nas ruas. Sensíveis à esta realidade, os religiosos Pobres Servos sentiram no coração o chamado de se aproximar da comunidade, colocando-se a serviço das pessoas e colaborando para responder, com fraternidade e cuidado, às necessidades sociais presentes.
A solução ganhou sua forma inicial em um antigo bonde que permanecia no terreno da paróquia, onde passaram a ocorrer os primeiros atendimentos com as crianças, adolescentes e jovens da comunidade. Com o tempo, o número de beneficiários atendidos cresceu significativamente, tornando necessária a busca por um espaço mais amplo e adequado para a continuidade do trabalho.
Para isso, a Congregação dos Pobres Servos da Divina Providência, com o auxílio da organização Cáritas e da Mitra da Arquidiocese de Porto Alegre (MAPA), junto a órgãos públicos de assistência, como o Departamento Municipal de Habitação (DEMHAB), criou o Centro de Promoção do Menor (CPM) e a Creche Infantil Menino Jesus. Em 8 de março de 1976, as atividades iniciaram oficialmente, com 80 crianças na creche e 220 jovens e adolescentes no CPM.



“Era bastante complicado, pois a realidade da Restinga era de uma pobreza muito grande. Graças a Deus, hoje a Restinga é outra realidade social, avançou muito, mas antes era muito difícil, com necessidades delicadas, carências e fragilidades profundas”, relembra Ir. Silvio da Silva, religioso da Congregação que participou ativamente do CPM poucos anos depois do início das atividades.
Inicialmente sob responsabilidade jurídica e administrativa do Secretariado de Ação Social – Cáritas de Porto Alegre, o espaço passou integralmente aos Pobres Servos da Divina Providência em 1977. Durante os anos seguintes, a unidade deu prosseguimento, buscando meios e recursos para garantir a oferta, consolidação e expansão dos serviços prestados.
Natural do Mato Grosso do Sul, com 43 anos de vida religiosa, o atual coordenador do setor formativo da Congregação, Ir. Silvio, conheceu o Centro de Promoção do Menor e a Restinga na década de 1970.
Foi ainda como seminarista, depois de concluir o Ensino Médio no Centro de Educação Profissional São João Calábria, que recebeu sua primeira missão, dando os primeiros passos em sua verdadeira vocação. Ele foi encaminhado ao CPM, onde permaneceu nos anos de 1981 e 1982.

Ir. Silvio é coordenador nacional do setor de formação e conselheiro dos Pobres Servos da Divina Providência.
“Uma imagem que está gravada na minha cabeça até hoje foi a de uma família que visitamos. Eram cinco crianças. Quando chegamos lá, encontramos o fogão a lenha apagado. Não por falta de lenha, mas por não terem o que comer. A única refeição que elas tinham era na escola.”, relembra Ir. Silvio.
No seu primeiro ano, contribuía com o abastecimento da cozinha pela manhã e, à tarde, trabalhava diretamente nas salas de aula com uma turma de crianças da 4ª série, como monitor. Depois, passou a atender os maiores. Junto aos educandos, auxiliava em atividades artísticas; havia estímulo à prática de esportes, como o futebol, além de apoio aos estudos e à aprendizagem.
Quando outubro chegava, batia um aperto no peito. Era o momento em que eles seguiriam seus caminhos. Os meninos davam continuidade à sua formação no CEPSJC ou em outras instituições, e as meninas iam para o Monteiro Lobato – institutos das irmãs Murialdinas.



Após esse período, deixou a Restinga para seguir para o noviciado, no município de Farroupilha. Porém, em um ano, a Divina Providência atuou para que ele retornasse, dessa vez como vice-diretor, nos anos de 1984 e 1985.
Na sua terceira passagem, já na década de 1990, teve a oportunidade de contribuir como coordenador pedagógico da unidade. As reuniões com educadores eram momentos de compartilhar conquistas e desafios na missão. Para Ir. Silvio, os encontros tocavam seu coração ao perceber a entrega, o amor e o comprometimento de todos com os jovens.
“Tocava-me muito ver educador chorando, não por ter feito algo errado, mas porque não conseguiu alcançar o objetivo e achava que estava derrotado. Na semana ou no mês seguinte, esses mesmos meninos e meninas surpreendiam, fazendo coisas maravilhosas. Isso era muito gratificante”, conta ele, ao expressar um sorriso nostálgico.
A caminhada do religioso começou movida pelo desejo de se tornar sacerdote, mas foi no convívio com as crianças que ele compreendeu o sentido mais profundo de sua vocação. Durante sua estadia na Restinga, ao partilhar as dificuldades dos educandos, descobriu que o mundo também precisava de irmãos mais velhos – não apenas alguém que ensina, mas quem caminha junto, sustenta, orienta e permanece ao lado das crianças nos bons e nos maus momentos. Tempos que, hoje, ele revive com carinho através de lembranças marcadas no coração.
A virada do milênio trouxe muitas mudanças para a Obra da Vila Restinga, começando pela alteração do nome, no ano de 2001. Devido ao novo projeto da Lei de Diretrizes e Bases (LDB) e ao recém-criado Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o então chamado Centro de Promoção do Menor tornou-se o Centro de Promoção da Infância e da Juventude (CPIJ). Na primeira década dos anos 2000, houve uma ampliação da atividade por meio de parcerias com a Prefeitura e de programas governamentais de inclusão social.
Com o crescimento da presença e o aumento das necessidades da comunidade, tornou-se necessário estender o cuidado e a missão também às áreas mais distantes do próprio bairro. Assim, outras Casas (como Pe. Calábria gostava de se referir aos espaços de atendimento, trazendo um sentimento de pertencimento e acolhida), espaços de acolhida e atendimento, foram nascendo ligados ao CPIJ, como o Núcleo – Centro Cultural Francisco Cipriano” (hoje Núcleo Francisco Cipriani) em 2002 e em 2004 o “Núcleo – Centro de Escuta São João Calábria” (hoje Núcleo São João Calábria. No decorrer do tempo foram sendo inaugurados outras “Casas” como o Santa Teresinha, Santa Dulce e Nossa Senhora de Lourdes, sinais concretos de uma Obra que cresce para estar cada vez mais próxima das pessoas.

Se, na década de 1980, esta semente da Obra Calabriana começava a ser plantada no extremo sul de Porto Alegre por meio do CPM, nos primeiros anos do novo milênio essa presença foi se fortalecendo e assumindo novos contornos com a constituição do CPIJ. Aquilo que nasceu de forma simples, movido pela confiança e pelo serviço à comunidade, foi crescendo e criando raízes cada vez mais profundas.
Raízes sustentadas pela fé na Divina Providência e pela certeza de que, quando a missão é vivida com amor e fidelidade, a obra encontra caminhos mesmo onde, humanamente, tudo parece difícil. Como ensinava São João Calábria, são raízes que permanecem voltadas para o céu, alimentadas pela esperança, pela confiança e pelo desejo de servir.
Assim, a pequena semente plantada anos antes foi crescendo, fortalecendo sua presença na comunidade e transformando-se em uma obra viva, que continua a florescer na vida de tantas crianças, adolescentes e famílias.

Construção da área coberta, posteriormente fechada para abrigar o refeitório e, depois, as aulas de karatê.


Na década de 2010, o CPIJ fortaleceu ainda mais sua atuação como espaço de promoção da vida e da cidadania. Com uma trajetória marcada por iniciativas socioeducativas, culturais e de fortalecimento de vínculos, a unidade ampliou parcerias e consolidou projetos voltados à educação integral e ao desenvolvimento comunitário, atendendo centenas de participantes em atividades educativas, artísticas, esportivas e de formação cidadã.
A partir de 2011, o CPIJ também passou a atuar de forma mais intensa em rede com unidades educacionais do município de Porto Alegre, especialmente por meio da execução de programas de Educação Infantil em parceria com o poder público municipal. Essas iniciativas ampliaram o alcance da missão calabriana de cuidado e promoção da infância, inspirada no legado, valores e princípios de São João.
Em 2016, um passo importante marcou a história institucional: a integração da gestão do CPIJ com o Centro de Educação Profissional São João Calábria (CEPSJC). Essa integração possibilitou maior articulação entre as ações socioassistenciais, educativas e de qualificação profissional, fortalecendo o atendimento integral às pessoas acompanhadas pela instituição e ampliando as oportunidades de formação e desenvolvimento para jovens da comunidade. Esse processo levou ao fortalecimento das práticas de gestão colaborativa até à criação da Rede Calábria.
A nova estrutura organizacional passou a reunir as diferentes atividades socioassistenciais e educativas da Congregação dos Pobres Servos da Divina Providência — entre elas o CPIJ, o Centro de Educação Profissional São João Calábria, a ABENSA – Associação Beneficente Nossa Senhora de Aparecida, Abrigo João Paulo Segundo, o Centro de Educação Profissional São João Calábria e as escolas de Educação Infantil em uma rede articulada de fraternidade que busca como visão contribuir na construção de um mundo mais justo e fraterno.


A organização Kindernothilfe, por meio da Amencar, contribuiu com intercâmbio de educadores sociais.

A atual coordenadora do Centro de Promoção da Infância e Juventude, Nielly Pastelletto, ingressou na Rede Calábria em 2023. Há três anos, começou como coordenadora de projetos na unidade. Seu primeiro contato com os educandos foi em um passeio na unidade Angela Foschio, nomeada em homenagem à mãe de São João Calábria, onde as crianças e os jovens já demonstraram toda a sua energia e fervor.
No início, o grande desafio era trazer mais adolescentes para os projetos, mesmo assim, com dedicação e perseverança, conseguiu atingir as metas estabelecidas. Ao rememorar as vivências desde sua chegada, não faltam memórias que expressam o poder transformador daquilo que o CPIJ representa.
“O que me marcou, ao longo de todo esse tempo, foi ver um educando em específico que, quando eu cheguei aqui, estava literalmente pulando o muro pela árvore. Hoje, ele é um educando que auxilia, que conversa e que teve um grande desenvolvimento pessoal”, conta Nielly.

A influência positiva exercida através de todo o trabalho desenvolvido pelos colaboradores da Obra sobre todas as crianças e jovens beneficiários na unidade transparece na mudança de comportamento, atitudes, hábitos e na forma de pensar. Eles resgatam sua auto estima, se sentem reconhecidos e dignos, aprendem a conduzir suas vidas com protagonismo e confiança.
O educando Matheus Rosa da Silva, de 17 anos de idade, está no seu último ano de CPIJ. Ao longo do tempo na unidade, participou de muitos projetos artísticos impulsionado pelo seu gosto por desenhar. Para ele, o espaço tem um valor inestimável, é onde ele aprendeu valores importantes que levará sempre consigo. Lá, ele desenvolveu a capacidade de se adaptar e se integrar ao meio social.
“Eu sempre fui uma pessoa muito fechada. Não falava com os outros e me escondia na fila. Tinha dificuldade de falar e demonstrar meus sentimentos. Hoje em dia, eu consigo falar com as pessoas, elas me ouvem e eu também ouço elas”, revela o educando.
O que torna a unidade tão especial não é o ambiente físico, mas sim pessoas que se conectam para levar presença real, preenchendo lacunas deixadas pela sociedade com afeto, amor e esperança.
“Os educadores sempre foram meus amigos, sempre os achei bem compreensivos. Eles nos entendem, procuram compreender o que nos dói e nos ajudam a solucionar os problemas da melhor maneira possível”, conta ele.
Quando perguntado sobre o que significa o CPIJ para ele, Matheus não hesita em afirmar: “Ele é um refúgio, um ótimo refúgio.” Este é apenas um caso entre tantos outros que demonstram a relevância do trabalho que é desenvolvido há 50 anos por lá. Nielly Pastelletto confirma essa perspectiva com base na sua vivência diária.
“Eu sinto que as crianças que estão aqui buscam proteção. Teve um que saiu daqui um dia, voltou para casa e não encontrou ninguém; então, ele se desorganizou, e o primeiro local para onde veio foi para cá. Ele é brigão, tem o seu jeitinho, e chegou chorando. Foi a única vez que o vi chorar. Então, é uma referência para eles, desde muito pequenos até os mais velhos, já que este é um lugar para onde sabem que podem voltar”, relata a coordenadora.

Cinco décadas depois do início dessa história, o Centro de Promoção da Infância e da Juventude permanece como um sinal vivo de esperança na comunidade da Restinga. Aquilo que começou de forma simples, em um bonde adaptado no pátio da paróquia, movido pela sensibilidade diante das necessidades das crianças e famílias, transformou-se em uma presença consolidada e constante, profundamente enraizada na vida do bairro.
Ao longo dos anos, milhares de crianças, adolescentes e famílias encontraram no CPIJ um espaço de acolhimento, aprendizagem e construção de novas possibilidades de vida. O que se construiu a partir desta “Casa” foi uma história compartilhada com a própria comunidade da Restinga, marcada por desafios, superações e pela força de pessoas que acreditaram que cada vida possui um valor único.



Essa caminhada carrega, em sua essência, o legado de São João Calábria. Um legado que ensina a olhar com atenção para aqueles que muitas vezes são esquecidos, a confiar na Providência e a responder às necessidades do tempo com gestos concretos de amor e fraternidade.
Celebrar os 50 anos do CPIJ é reconhecer uma trajetória feita de muitas mãos, muitos sonhos e incontáveis histórias de serviço e de transformação. É também renovar a certeza de que a missão continua. Assim como no início, a Obra segue sendo construída dia após dia por pessoas que acreditam que promover a vida é, antes de tudo, caminhar junto com esperança e confiança plena na Divina Providência.