No dia 18 de abril, a Rede Calábria celebra, junto a toda a família calabriana, a canonização de São João Calábria, ocorrida em 1999 e proclamada, neste mesmo dia, pelo Papa João Paulo II. Sua vida foi um reflexo da luz do Evangelho, tornando visíveis aqueles que, muitas vezes, são marginalizados e desamparados pela sociedade.
Desde o nascimento, a pobreza e os desafios marcaram sua caminhada. Ainda assim, diante de inúmeras provações, deixou-se conduzir pela Divina Providência e tornou-se um verdadeiro Evangelho vivo, um farol de esperança em um mundo que tanto necessita do amor ao próximo e do espírito da caridade, até os dias de hoje.
Seus milagres não estão apenas no extraordinário, mas são evidenciados diariamente por meio de realidades transformadas e milhares de vidas promovidas pelo mundo. Hoje são crianças, jovens, adultos e idosos que constroem novos caminhos através de mãos que se tornaram instrumentos da intercessão de Deus.

Para Pe. Gustavo Bonassi, diretor-geral da Rede Calábria, uma das marcas dos santos é serem visionários, pessoas capazes de ir além de seu tempo, seja por meio de seus escritos, mensagens ou pela intuição missionária.
Nesse sentido, recorda que São João Calábria tinha a firme convicção de que a Obra dos Pobres Servos possui uma missão especial, voltada às realidades do tempo presente, o que se expressa na atenção constante aos sinais dos tempos, às novas pobrezas e às complexidades que afetam a vida das pessoas.
“Calábria deixa como legado uma confiança ilimitada na Divina Providência. Tanto que o Papa Francisco, em seu discurso aos capitulares, incentivou a Obra a ser artesãos da Divina Providência para curarmos a humanidade da cultura da indiferença. Inclusive, ele foi definido pela Igreja como um ‘campeão de caridade’, eis o nosso bom e grande desafio”, destaca Pe.Gustavo.
Nascido em Verona, na Itália, em 8 de outubro de 1873, João Calábria era filho do sapateiro Luis Calábria e de Angela Foschio, empregada doméstica. Com o falecimento do pai, ainda jovem, precisou trabalhar como garçom para ajudar no sustento da família. Reconhecido por suas virtudes, foi acolhido e orientado por Pe. Pedro Scapini, que o ajudou a se preparar e ingressar no seminário.
No entanto, por um período, precisou interromper os estudos para cumprir o serviço militar, onde já se destacava pela caridade e pela fé vivida no cotidiano. Ao concluir suas obrigações, retornou ao seminário, até que, quando estava no 1ª ano de teologia, em uma fria noite de novembro de 1897, deparou-se com a situação que veio a definir seu propósito de vida.
Calábria retornava da visita que realizava aos doentes no hospital quando, diante de sua porta, encontrou um menino cigano, em farrapos, assustado e com muito frio. Sem hesitar, acolheu-o em sua própria casa, em um gesto prático de viver o evangelho que marcaria o início de sua Obra, revelando o caminho que Deus lhe confiava.Mais tarde, em 1907, já como sacerdote, iniciou oficialmente a “Casa Buoni Fanciulli”, oferecendo acolhimento, educação, formação e os alicerces morais e espirituais necessários para promover integralmente meninos em situação de vulnerabilidade social.
A semente da missão foi sendo semeada e crescendo ao longo do tempo, com a adesão de cada vez mais religiosos e leigos, que contribuíram para a consolidação da Obra. Sustentada pela confiança na Divina Providência, ela ultrapassou fronteiras e atravessou continentes, alcançando lugares inimagináveis para a época.
Hoje, o espírito de fraternidade e serviço aos abandonados, com a certeza de que Deus é Pai e cuida de todos como membros de uma única família, está presente em 14 países através da atuação da Congregação Pobres Servos da Divina Providência, fundada por Calábria. São eles: Itália, Portugal, Romênia, Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai, República Dominicana, Angola, Quênia, Guiné-Bissau, Filipinas, India e Papua-Nova Guiné.
A Igreja Católica Apostólica Romana considera várias etapas até reconhecer, com cuidado e discernimento, aqueles que fizeram de sua vida um testemunho vivo do amor de Deus. Chamado de Canonização, o processo deve seguir a normativa que está presente no Código de Direito Canônico.
Na primeira fase, tudo começa na diocese onde o candidato viveu ou morreu. Lá, é aberto pelo bispo, uma investigação criteriosa sobre sua vida e a aplicação prática das virtudes no seu cotidiano, devendo ter vivido de acordo com os princípios cristãos e de modo heróico.
A documentação reunida é encaminhada ao Vaticano, mais especificamente ao Dicastério para as Causas dos Santos. Com a aprovação do Papa, passa a ser reconhecido como Servo de Deus.
Na fase de beatificação, é necessário que um milagre, como uma cura inexplicável cientificamente, seja atribuída à ele. Assim, proclamado como beato, passa a ser permitido o seu culto público local, inspirando a comunidade.
Para que a Canonização ocorra, e o candidato seja elevado ao título de santidade, um segundo milagre deve ser constatado. Somente quando um novo sinal se confirma, o Sumo Pontífice, o Papa, declara oficialmente como Santo e autoriza sua veneração. Os trâmites podem levar anos e seguem uma pesquisa rígida e análise criteriosa tanto teológicas como médicas.

O primeiro milagre atribuído a São João Calábria, que levou à sua beatificação, foi o caso de Libório Testa. Aos 72 anos de idade, Libório, um homem simples que vivia na província de L’Aquila, na Itália, sofria de um quadro grave de cirrose hepática. Desenganado pelos médicos e à beira da morte, devido ao inchaço provocado pela doença, que lhe dificultava a respiração, já não havia nada a ser feito.
Então, sua esposa, em desespero, recorreu a uma relíquia do Pe. Calábria, que colocou sobre o corpo do marido enfermo, e começou a orar por sua recuperação. Depois disso, Libório foi curado. O milagre, ocorrido em 27 de dezembro de 1957, permitiu que ele vivesse com energia e saúde até os 83 anos de idade.
O segundo caso, que contribuiu para sua canonização, foi o de Rita Faccioli, em 13 de junho de 1987, na cidade de Reconquista, na Argentina. Rita tinha 45 anos quando foi diagnosticada com câncer de mama em estágio avançado.
Após passar por uma cirurgia delicada, ficou com o lado direito do corpo paralisado e perdeu a visão do olho direito. Uma metástase havia comprometido também o seu cérebro, agravando ainda mais seu estado de saúde. Os médicos afirmaram que não havia muito a ser feito e a encaminharam para casa. Sua família procurou um padre da Congregação dos Pobres Servos, que os aconselhou a fazer uma novena a São João Calábria. A oração foi realizada em um único dia, com uma relíquia colocada sobre o corpo de Rita. Na noite seguinte, ela recuperou os movimentos, e sua visão foi restaurada. Os médicos atestaram que ela estava livre do câncer.

Aos 28 anos de idade, o Ir. Sérgio Tomasel recebeu um convite que marcaria sua experiência na vida religiosa para sempre. A Congregação dos Pobres Servos da Divina Providência, da qual faz parte, havia o escalado para representar a Delegação na beatificação de Pe. João Calábria, na Itália.
O ano era 1988, e naquele período, o religioso atuava na Argentina, mais precisamente na periferia da capital de Buenos Aires, em Gonzalez Cátan. Apesar de jovem, possuía 11 anos de vocação, o que o destacou para que fosse escolhido para uma importante missão: ser encarregado de entregar ao Papa João Paulo II, alguns ícones de Nossa Senhora, venerados na Diocese de Verona.
Diante de um mar de fiéis que cobriam arquibancadas inteiras e o gramado do estádio Bentegodi para acompanhar o momento, Ir. Sérgio presenciou a beatificação e recebeu a benção do pontífice, que mais adiante também veio a se tornar Santo. Como um perpetuador do carisma calabriano e do legado de São João Calábria, foi arrebatado por uma emoção avassaladora.
Ele relembra, emocionado, que sua ida a Verona, naquela ocasião especial, foi uma vivência marcada por muitas primeiras vezes: o carinho de um Papa que se tornaria santo, o encanto de participar de uma beatificação em solo italiano, a oração silenciosa no túmulo do fundador, então recém-declarado Beato na Casa Mãe, além da visita à cidade de Roma e do abraço dos irmãos que viam neles os continuadores do carisma no mundo.
“Hoje, compreendo que certas experiências não são feitas para serem explicadas, mas para serem guardadas no sagrado do nosso inconsciente. Elas nos sustentam pelo resto dos anos”, relembra emocionado Ir. Sérgio.
Ao celebrar os 27 anos de canonização de São João Calábria, a Rede Calábria reafirma que manter viva essa memória é perpetuar um legado de entrega à Divina Providência, permitindo que ela nos conduza ao encontro dos mais necessitados, com acolhimento e cuidado que ultrapassam o tempo e as fronteiras. Inspirados por sua fé inabalável, somos continuamente chamados a transformar realidades, promover a dignidade humana e ser sinais concretos do amor de Deus no mundo. Que o testemunho de São João Calábria siga iluminando caminhos e despertando, em cada coração, o desejo de servir ao próximo.