Proteger a vida também é dar voz a quem ainda não pode se defender sozinho. Foi com esse compromisso que o SEAS – Serviço Especializado de Abordagem Social da Rede Calábria, também conhecido como Ação Rua, serviço realizado em parceria com a Secretaria Municipal de Assistência Social (SMAS), ocupou as ruas de Porto Alegre (RS) nesta quinta-feira (18), para sensibilizar a população e comércios locais sobre a exploração do trabalho infantil.
A ação, realizada em conjunto com o Conselho Tutelar da Microrregião 6, foi feita em alusão ao Dia Mundial do Combate ao Trabalho Infantil, lembrado em 12 de junho. Portando cartazes, faixas, placas e distribuindo materiais informativos, a equipe percorreu um trajeto identificado como de alta concentração de crianças em situação de vulnerabilidade e violação de direiros, que deixam o ambiente de proteção para enfrentar a dura realidade das ruas.



A caminhada partiu da Rua Engenheiro Coelho Parreira até a esquina com a Avenida Juca Batista, no Shopping Guadix. Ao longo do percurso, a equipe entrou em estabelecimentos comerciais para informar os principais canais de denúncia desse tipo de exploração, além de conversar com pedestres e esclarecer dúvidas sobre como identificar situações que caracterizam trabalho infantil.
“Nós temos jovens, crianças, adolescentes e famílias, por vezes casais com crianças de colo, na mendicância e na venda de produtos como balas de goma e paçoca. Recebemos algumas denúncias do comércio sobre isso. Quando recebem respostas negativas dos clientes, eles acabam vandalizando ou ameaçando as pessoas”, afirma Márcio Régio, Educador Social do SEAS/Ação Rua.
Em realidades marcadas por camadas profundas de vulnerabilidade, no âmbito do combate à exploração infantil, o Serviço Especializado de Abordagem Social busca não apenas afastar crianças e adolescentes desta situação, mas também acolher suas famílias, compreender as causas que as levam às ruas e encaminhá-las à rede de proteção, na certeza de que cada criança resgatada é também uma vida reconduzida à dignidade e ao direito de viver a infância.
Janaína da Rosa, coordenadora do SEAS/Ação Rua, explica que a abordagem é realizada sob um viés protetivo, buscando fortalecer as famílias por meio da inclusão das crianças e adolescentes em serviços como o Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos, o Trabalho Educativo e a Educação Infantil. Além disso, as demandas identificadas são acompanhadas em articulação com a rede de proteção social.




“Primeiro, a gente avalia o cenário, conversa com a família, identifica as fragilidades e busca compreender o que levou aquela criança a estar naquele espaço. Depois, articulamos com a rede e construímos, junto com a família, caminhos para a superação dessa situação”, explica Janaína ao descrever o processo de abordagem inicial realizado pelo serviço.
Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), 4.318 crianças e adolescentes foram afastados de situações de trabalho infantil em todo o país ao longo de 2025. Nos primeiros quatro meses de 2026, outras 1.108 crianças e adolescentes foram identificadas em situação de exploração e retiradas dessa condição.
Ainda de acordo com o órgão federal, os setores que concentram o maior número de casos incluem o comércio varejista e atividades como venda ambulante de alimentos, restaurantes, lanchonetes, supermercados, oficinas mecânicas e alguns segmentos da indústria.



O Rio Grande do Sul está entre os estados com maior número de registros, ao lado de Minas Gerais, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Pernambuco, Espírito Santo, Bahia e Rio de Janeiro. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC, 2024), do IBGE, o Brasil já registra 1,65 milhão de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos em situação de trabalho infantil, um aumento de 34 mil casos em relação ao ano anterior, o que coloca o país abaixo da Meta 8.7 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que previa a erradicação das piores formas de trabalho infantil até 2025.
Diante de números que ainda crescem, ações como essas se fazem cada vez mais necessárias para garantir que possamos construir uma sociedade mais atenta, solidária e comprometida com a proteção da infância. Inspirados pelo olhar de São João Calábria para com elas, as chamadas “pérolas da Obra”, a Rede Calábria mantém o seu legado como instrumento de manifestação da Divina Providência aos que mais necessitam de cuidado.
“Nós, Pobres Servos, devemos dar a nossa contribuição com a santidade da vida, irradiando a pura luz do santo evangelho, sendo evangelhos vivos, procurando almas, só almas, especialmente as mais necessitadas. Como lhes disse outras vezes, crianças abandonadas, velhos, pobres, enfermos, são as nossas riquezas, as pérolas da Obra” – São João Calábria
