A importância do acolhimento familiar e a necessidade de ampliar o número de pessoas capacitadas para receber crianças e adolescentes afastados de suas famílias de origem estiveram em destaque no primeiro Seminário Municipal sobre Acolhimento Familiar, realizado nesta terça-feira (22), no Palácio da Justiça, em Porto Alegre (RS). A programação também contou com a participação da coordenadora do serviço pela Rede Calábria, Solange Paim, que apresentou o trabalho desenvolvido diariamente pelas equipes técnicas da instituição no acompanhamento das famílias acolhedoras.
Realizado no auditório Desembargador Osvaldo Stefanello, o seminário foi promovido pelo Comitê Gestor Interinstitucional de Famílias Acolhedoras, integrado pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS), pelo Ministério Público Estadual, pela Secretaria de Desenvolvimento Social (SEDES) e pela Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Rio Grande do Sul (OAB/RS).
O encontro reuniu integrantes do sistema de justiça, especialistas, gestores públicos e profissionais da rede de proteção para compartilhar experiências e discutir a articulação intersetorial necessária à modalidade de acolhimento. Segundo dados apresentados durante o seminário, atualmente a capital gaúcha possui 823 crianças e adolescentes em acolhimento institucional, enquanto apenas 15 estão em Famílias Acolhedoras.
Após a abertura, realizada com a participação de representantes do Judiciário, Ministério Público, Defensoria Pública, OAB/RS e Secretaria de Assistência Social, o encontro foi dividido em três painéis.






A Dra. Tagma Schneider Dornelles, professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica da Unisinos, junto do Dr. Charles Bittencourt, coordenador da CIJRS e juiz-corregedor, conduziram o primeiro painel, com o tema “A importância dos vínculos e do cuidado na primeira infância”. Em sua fala, destacou o papel fundamental da família no desenvolvimento infantil.
A partir da Teoria do Apego, de John Bowlby, a apresentação abordou a busca por contato e proximidade como uma necessidade primária, biológica e inata. Nessa perspectiva, a construção de vínculos seguros desde os primeiros anos de vida desempenha um papel importante no desenvolvimento da criança e na forma como ela estabelece relações ao longo da vida.



No segundo painel, “Sistema de Justiça e a Integração com a Rede Municipal de Proteção da Infância”, Dr. Fábio Vieira Heerdt, Dra. Carla Souto, Solange Paim, coordenadora do serviço de Família Acolhedora pela Rede Calábria, e Vera Ponzio compartilharam dados, relatos e experiências sobre os impactos do ambiente familiar no desenvolvimento e na proteção de crianças e adolescentes.

Dra. Carla Souto trouxe ao debate as contribuições do acolhimento familiar a partir do Bucharest Early Intervention Project (BEIP), estudo científico realizado na Romênia para investigar os impactos de diferentes formas de cuidado sobre crianças pequenas institucionalizadas. A partir dos resultados da pesquisa, ela abordou o acolhimento familiar como uma possibilidade de cuidado capaz de contribuir para o desenvolvimento infantil e para o rompimento de ciclos transgeracionais.
Segundo a reflexão apresentada, as violações de direitos que atravessam a vida de crianças e adolescentes não costumam começar em uma única geração, mas podem se repetir ao longo das histórias familiares, tornando o cuidado e a proteção fundamentais para interromper esse ciclo.



A coordenadora do serviço de Família Acolhedora pela Rede Calábria, Solange Paim, compartilhou com os participantes um pouco do trabalho realizado pelas equipes técnicas no acompanhamento das famílias. Entre os desafios apresentados, destacou os momentos de chegada e partida das crianças, que exigem planejamento e cuidado para que os vínculos construídos durante o acolhimento sejam respeitados.


“Não é para ser uma ruptura, e sim uma separação de uma forma gradual e segura para a criança,” afirma.
Para ela, o trabalho técnico também passa pela capacidade de compreender as particularidades de cada família, construindo vínculos de confiança e aprendendo continuamente com as experiências vividas ao longo dos acolhimentos.
“Cada família acolhedora comunica de forma diferente os seus sentimentos, as suas alegrias, as suas insatisfações, e cabe também à equipe poder fazer uma leitura disso”, conta ela.
Também foram citadas as rodas de conversa e os espaços de fortalecimento e apoio a partir de situações já vivenciadas pelas famílias. Esses momentos possibilitam trocas e aprendizados coletivos, em que as experiências compartilhadas contribuem para a construção de uma rede de apoio necessária ao cuidado.

O encerramento ficou com o painel “Experiências em acolhimento familiar”, que trouxe relatos de quem vivenciou esse processo de lugares distintos. Rosane Chiappo Duarte, que atualmente está em seu segundo acolhimento, compartilhou sua experiência como família acolhedora.
Na sequência, Priscila Zanetti e Rafael Tucci, pais adotivos de Aila, menina que esteve sob os cuidados de Rosane, relataram como o apoio recebido durante a transição foi importante para todos e destacaram o alívio de saber que a filha estava recebendo um cuidado individualizado enquanto aguardava a conclusão do processo de adoção.
Ao colocar no palco do auditório as experiências de sucesso e vidas transformadas pelos vínculos de afeto, o evento mostrou que cuidar das Pérolas da Obra é colocar-se em total entrega.



É nesse lugar de presença e proximidade que a Rede Calábria vive sua missão e se compromete, reconhecendo em cada criança uma vida que precisa ser acolhida e protegida.
Um jeito de fazer que encontra no carisma de São João Calábria a inspiração para estar perto, cuidar com sensibilidade e ajudar a construir caminhos onde a vida possa .
