Os primeiros anos de vida são determinantes para as crianças. É um período de intensas descobertas, em que as experiências e relações vividas contribuem para o desenvolvimento físico, mental e emocional. Instituído em agosto, o Mês da Primeira Infância busca conscientizar sobre a importância dessa etapa, capaz de influenciar uma vida inteira.
Essa compreensão também está presente no trabalho de instituições como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, que destacam a necessidade de oferecer às crianças ambientes seguros, relações de cuidado e oportunidades para se desenvolver. Em parceria com o poder público, a Rede Calábria atua na Educação Infantil a partir dessa perspectiva, acolhendo cada uma em sua singularidade e respeitando seu próprio jeito e tempo de aprender.
Um olhar atento para a Primeira Infância significa, antes de tudo, reconhecer o potencial pedagógico presente na simplicidade do brincar e na curiosidade que move as descobertas. Nas Escolas de Educação Infantil (EEI), as propostas partem das vivências dos pequenos e abrem espaço para novas formas de interagir com o mundo.


No Brasil, esse entendimento também orienta a construção de políticas públicas. O Marco Legal da Primeira Infância, instituído em 2016, estabelece princípios e diretrizes para ações voltadas ao desenvolvimento integral das crianças de zero a seis anos. Mais recentemente, em 2025, o país instituiu a Política Nacional Integrada da Primeira Infância (PNIPI), que busca articular diferentes áreas, como educação, saúde e assistência social, considerando a realidade do país.
É nesse contexto que a Educação Infantil assume um papel relevante, com efeitos que ultrapassam o cotidiano escolar e alcançam a sociedade. Ao oferecer ambientes seguros e relações de confiança para que possam brincar e se desenvolver, a escola participa de uma rede de cuidados que as acompanha em um momento decisivo de sua formação. Um cuidado que também significa despertar potenciais e ampliar as possibilidades que terão ao longo da sua trajetória.
Na Rede Calábria, esse compromisso está presente no cotidiano das escolas e se expressa na forma como os espaços são organizados, as experiências pedagógicas são planejadas, as crianças são acolhidas e as parcerias com as famílias e com a comunidade são fortalecidas.
De acordo com o Relatório de Impacto Social da instituição, em 2025, foram atendidas quase 2.500 crianças em 24 Escolas de Educação Infantil parceiras nos municípios de Porto Alegre (RS) e Muçum (RS). Desse total, 40% tinham entre zero e três anos, enquanto 60% estavam na faixa dos quatro aos seis anos.
Segundo dados de 2024 disponibilizados pelo Cadastro Único, Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal (FMCSV) e Ministério do Desenvolvimento Social, cerca de 10 milhões de crianças vivem em famílias de baixa renda, correspondendo a aproximadamente 55,4% da população considerada pelo levantamento. Diante desse cenário, compreendemos que garantir oportunidades desde cedo faz parte do caminho para romper ciclos de vulnerabilidade social e contribuir para a construção de uma sociedade mais justa.
Na EEI Pe. Pedro Cunegatti, em parceria com a Secretaria Municipal de Educação de Porto Alegre (SMED), essa perspectiva está presente nos diferentes espaços da escola, que convida os pequenos a explorar o ambiente, fazendo suas próprias descobertas. Uma prática que também considera seus ritmos e singularidades.


A educadora Viviane Bogado dos Reis, que atua com o Berçário 1, relata que mesmo os gestos mais simples carregam aprendizagens importantes. Quando uma criança brinca de preparar uma refeição, rabisca com uma caneta ou investiga um elemento da natureza, ela está experimentando o mundo, criando referências e encontrando novas formas de se expressar.
“Ao mesmo tempo que a gente monta o cenário para eles realizarem as propostas, a gente convida eles. As crianças que querem brincar e explorar aquele momento ficam bem à vontade”, explica ela.
Na perspectiva da Pedagogia Calabriana, esse espaço para experimentar começa por perceber o outro e a sua realidade (ou seja, o “ver”, primeiro passo da pedagogia calabriana). Cuidar e educar caminham juntos e, conforme esclarece a coordenadora pedagógica Melya Varnieri, conhecer as particularidades é parte essencial desse processo. A atenção àquilo que cada uma traz consigo orienta a forma como a escola acolhe e propõe experiências.

“Nós acolhemos as crianças, conhecemos a história e nos colocamos no lugar delas. Isso para entender que bagagem essa criança está trazendo, qual é a história de vida e poder atender da melhor forma possível dentro dos nossos princípios da missão”, explica Melya.
Isso começa antes mesmo de iniciar a rotina escolar. Segundo a coordenadora, a Pedagogia Calabriana está presente desde o momento da matrícula, quando a equipe se aproxima da realidade das famílias.
No dia a dia das Escolas de Educação Infantil, essa escuta se transforma em propostas que acompanham os interesses dos pequenos. Os educadores observam aquilo que elas conversam, demonstram curiosidade e trazem para as vivências cotidianas. A partir dessas observações, surgem propostas que permitem aprender brincando.
Para Melya, a convivência é uma das dimensões importantes dessa etapa. Ao chegar à escola, a criança amplia seu universo de relações, encontrando outras crianças e descobrindo novas formas de interagir.


É também nesse processo que a expressão ganha espaço. Entre os trabalhos desenvolvidos estão diferentes linguagens artísticas, como pintura, desenho, teatro e fotografia.
“Acho que a grande maioria das propostas envolve essa questão da exploração, para que eles possam, através do desenho, comunicar o que eles estão sentindo e como é a visão deles de mundo”, destaca a coordenadora.
No brincar, essa liberdade também aparece de forma espontânea. Na Primeira Infância, o “faz de conta” ocupa uma função essencial nas descobertas e permite que as crianças reproduzam situações, atribuam novos significados aos objetos e ampliem seus repertórios.
Quando reproduzem o ato de cozinhar com panelinhas de brinquedo, elas também estão construindo conhecimento ao aprender sobre a função e a utilidade de cada utensílio.
“Foi uma proposta que eu trouxe para dentro da nossa sala porque eu vi o interesse deles no decorrer do dia a dia. O brincar simbólico já está muito presente nessa faixa etária. Mesmo eles sendo pequenininhos, eles já estavam tendo essa referência”, conta a educadora Viviane.

A experiência mostra como o dia a dia pode se transformar em uma proposta pedagógica. O que nasce como uma brincadeira passa a ser também uma oportunidade para novos saberes.



Todas as salas podem se transformar em espaços de descoberta, expressão e aprendizagem. Na Escola Cunegatti, o Ateliê de Artes foi pensado especialmente para enriquecer essas possibilidades.
A estrutura oferece às crianças diferentes materiais e experiências que favorecem a criatividade, a imaginação, a exploração sensorial e a expressão de ideias e sentimentos. Formas geométricas, caixas espelhadas, pincéis, caixas de luz, livros, puffs e muito mais compõem um espaço organizado para que as crianças possam experimentar, criar, observar, investigar e construir conhecimentos por meio das diferentes manifestações artísticas.
Trata-se de um ambiente pedagógico de investigação e aprendizado, no qual as propostas são elaboradas considerando os interesses e as curiosidades das crianças de forma participativa. Cada detalhe foi cuidadosamente pensado para promover a autonomia e a construção de vivências significativas.
O Ateliê também é utilizado para os atendimentos da Educação Especial na perspectiva inclusiva, possibilitando momentos de Atendimento Educacional Especializado (AEE) em um local acolhedor. Nesse contexto, o espaço contribui para a oferta de propostas e recursos que respeitam a diversidade e as necessidades individuais de cada criança, promovendo o desenvolvimento de todos.
“A escola Cunegatti tem uma estrutura maravilhosa e muitos espaços nos quais as crianças podem explorar. Um deles é o ateliê, que foi pensado justamente para desenvolver essa questão das linguagens artísticas”, afirma a coordenadora Melya.
Além de oferecer materiais e um espaço diferente, a proposta do ateliê é criar novas possibilidades de experimentação. Para que isso aconteça, porém, é necessário presença e cuidado real, alguém que oriente para a intenção de cada experiência.
“Além da estrutura física, acredito que o afeto, em primeiro lugar, o acolhimento e o amor precisam estar presentes para que todo esse espaço seja usufruído de forma coerente. É importante que as crianças possam entender que esse espaço é para elas, que foi feito para elas e que é delas”, complementa.


Na EEI Pe. Pedro Scapini, localizada no bairro Sarandi, em Porto Alegre (RS), o respeito às características de cada criança também orienta as práticas diárias.
“A gente realmente olha a criança como um sujeito único. Então, a gente respeita o tempo dela, as preferências dela em todos os momentos da rotina”, afirma Danieli Pereira, coordenadora da Rede Calábria na escola.
Ela destaca também que tanto as brincadeiras dirigidas quanto os momentos de livre exploração permitem que elas assumam papéis e se sintam à vontade para revelar sua essência. Na leveza do brincar não existe o peso da cobrança de estar certa ou errada.

Os momentos de acolhida, presentes na rotina das unidades, também são espaços para trabalhar valores como fraternidade e solidariedade. Nesses momentos, a espiritualidade calabriana se faz presente por meio de fábulas, dinâmicas e reflexões que ajudam elas a pensar sobre diferentes situações do cotidiano.
“A gente quer apresentar para as crianças uma forma de como a gente pode ser melhor para o outro, para si, como ter respeito, como ter empatia com o outro”, explica Daniele.
Dentre as propostas que despertam a curiosidade dos pequenos estão aquelas que utilizam matéria-prima natural. Ao sentar uma de cada vez junto à mesa, organizada com recipientes contendo tinta de beterraba e açafrão, elas pincelam uma pequena tela com um galho de folhagem.
“Eles podiam explorar com o pincel natural, de um lado e do outro, ou até mesmo com o dedo. Teve criança que colocou a beterraba inteira dentro do potinho para tentar usá-la como um carimbo”, relata a educadora Melissa de Souza.



O intuito não está em chegar a um resultado final, mas em valorizar as diferentes maneiras encontradas por cada criança para experimentar os materiais e descobrir formas de se expressar artisticamente.
É nas pequenas descobertas que a infância vai ganhando um outro sentido. Um desenho, uma brincadeira de faz de conta, uma história ou o simples contato com a natureza são experiências que fazem com que percebam a sua relação e seu lugar no mundo.
Ao acompanhar cada criança de perto, com atenção e acolhimento, cria-se as condições para que ela seja a protagonista desse processo educativo e viva essa etapa com liberdade. Cuidar e educar caminham juntos no cotidiano da Educação Infantil. É nas relações e experiências vividas diariamente que as crianças constroem referências, desenvolvem confiança e aprendem a reconhecer a si mesmas e a se relacionar com o outro.
Este mês nos convida a olhar com dedicação para aquilo que fazemos todos os dias: garantir às crianças o direito de brincar, aprender, conviver, explorar e se expressar em ambientes seguros e acolhedores. Que o Mês da Primeira Infância nos inspire a continuar construindo uma Educação Infantil que reconheça as crianças como protagonistas e valorize suas descobertas. Cuidar da primeira infância é cuidar do presente para construir um futuro mais humano e fraterno.

