Nascido em Verona, na Itália, neste mesmo dia do ano de 1873, João Calabria viveu desde muito cedo uma vida marcada pela pobreza e pelas adversidades. Filho do sapateiro Luigi Calabria e da doméstica e católica fervorosa Angela Foschio, a caridade foi uma virtude que sempre o acompanhou, mesmo nos momentos mais difíceis.
Hoje, em seu 153º aniversário, São João Calábria segue sendo um farol que ilumina a vida de milhares de pessoas espalhadas pelo mundo. Não somente por suas palavras, mas por ações concretas que, mesmo após sua morte, continuam reverberando em cada país e território onde a Obra se estabeleceu.
Calábria cresceu em uma família simples e com a morte prematura de seu pai, precisou interromper os estudos ainda no 4º ano do primário para trabalhar como garçom.
Mas pela ação da Divina Providência, que tantas vezes seria reconhecida em sua história de vida, ele encontrou em Pe.Pedro Scapini, reitor de São Lourenço, alguém que acreditou em seu potencial e o ajudou com aulas particulares. Assim, conseguiu se preparar para os exames de admissão ao 2º grau no Seminário.
Como aluno externo, voltou aos estudos, mas sua trajetória não foi linear. No 3º ano, precisou novamente interromper a formação para prestar o serviço militar.
Embora as dificuldades fossem muito presentes na sua realidade, elas não foram capazes de afastar o menino do caminho que começava a se desenhar.
Ao contrário, as experiências vividas desde cedo o colocaram em contato com diferentes realidades e pessoas, enquanto crescia nele uma atenção especial aos que mais precisavam de cuidado e amparo. Nesse período, se destacou pelo espírito de solidariedade e humildade, conquistando amizades e conduzindo-as por caminhos de fé.



Quando retomou os estudos no Seminário, uma noite fria de novembro de 1897 marcaria para sempre a história de um homem a caminho da santidade.
Naquela noite, o destino colocou diante da porta de sua casa um menino franzino, deitado em meio a trapos. O jovem Calábria já frequentava o 1º ano de Teologia e retornava do hospital, onde costumava realizar visitas para levar conforto aos enfermos. Ao se deparar com aquele ciganinho em condições desumanas, não passou indiferente.
Para Pe. Gustavo Bonassi, diretor-geral da Rede Calábria, essa capacidade de perceber as necessidades ao seu redor acompanhou Calábria durante toda a sua vida.
“Calábria era um homem profundamente conectado com a realidade e os sinais dos tempos. […] Foi capaz de perceber o grito silencioso daquela criança ao lado de sua casa. São inúmeros fatos que demonstram que estava atento à realidade que o circundava”, explica.
A cena despertou nele uma resposta que ultrapassaria aquele momento e se tornaria um propósito que levaria para a vida. Diante daquela situação, cinco atitudes marcaram seu modo de agir e, décadas depois, seguem se manifestando através das diversas atividades, serviços e instituições da Obra.
Primeiramente, ele viu o ser que estava diante de si. Enxergou a pessoa humana para além da aparência e das condições em que se encontrava.
Depois, inclinou-se junto a ele. Uma atitude que o colocou no mesmo nível daquele menino, em uma posição de receptividade e presença viva, capaz de escutar atentamente, compreender suas necessidades, colocar-se em seu lugar e abrir-se à compaixão.
O próximo movimento foi o de sacudir suavemente. Uma ação que traz consigo o estímulo que desperta a pessoa para suas potencialidades, mas que também compreende suas fragilidades com empatia e ternura.
E isso leva ao reconhecer. É trazer para aquela situação o reconhecimento e o valor da dignidade humana em sua diversidade. É enxergá-lo como irmão, filho de Deus.
Todos esses gestos culminam no acolher, onde o afeto se manifesta concretamente ao colocar-se a serviço do outro, de coração aberto, reconhecendo suas necessidades e oferecendo condições para que sua dignidade seja vivida.
Acolher, para Calábria, nunca significou apenas oferecer um lugar. Era reconhecer no outro uma dignidade que já existia antes mesmo daquele encontro.



“Acolher para Calábria era muito mais que abrir as portas, as casas, as atividades às crianças e jovens. Significava devolver a eles a dignidade mais bela de serem reconhecidos e amados como filhos e filhas de um Deus que é Pai Providente. Isso é o que ele espera de nós também hoje”, reafirma Pe. Gustavo.
Mesmo sem ter muito a oferecer, João Calábria concedeu o seu teto e o seu cômodo para abrigar o ciganinho. Esse fatídico evento, o levou a voltar sua atenção para os meninos órfãos, sendo o princípio da Obra.
Foi em 26 de novembro de 1907, em Verona, na Itália, que o então Pe. Calábria deu início à Obra com a abertura da Casa Buoni Fanciulli (Casa dos Bons Meninos), na Rua Case Rotte. A missão começava a ganhar forma, fundamentada em seus princípios de caridade, do espírito de fraternidade e da confiança na Divina Providência.
No ano seguinte, em 6 de novembro de 1908, a Casa foi transferida para a Rua San Zeno in Monte, onde permanece até hoje como a Casa Mãe da Congregação.
À medida que o número de meninos acolhidos crescia, leigos começaram a se aproximar, desejando doar-se inteiramente ao serviço em prol das “Perólas da Obra”: os meninos abandonados. Alguns deles sentiram-se chamados a permanecer com Pe. Calábria e a viver, junto a ele, uma vida de entrega, fraternidade e testemunho como Evangelhos Vivos.

No entanto, foi somente em 11 de fevereiro de 1932 que os Pobres Servos da Divina Providência foi fundado como congregação religiosa de direito diocesano pelo bispo de Verona, com suas primeiras Constituições e profissões religiosas públicas.
A partir dali, a Obra foi crescendo e se espalhando para além das fronteiras da cidade italiana, levando consigo o jeito de ser e de fazer inspirado por Calábria: estar próximo, acolher, cuidar e reconhecer, em cada pessoa marginalizada, uma vida que merece ser valorizada e dignificada.
Mais de um século depois, esse espírito continua presente nos diferentes lugares onde está presente. São histórias, pessoas e realidades diversas que encontram na missão calabriana uma mesma raiz de servir e promover vidas, especialmente onde a presença, o cuidado e a fraternidade estão ausentes.



O que começou com o acolhimento de algumas vidas não ficou restrito àquela pequena Casa. À medida que a necessidade aumentava, também crescia o desejo de Pe. Calábria de levar aquele mesma missão para outros lugares, sempre atento às vulnerabilidades de seu tempo e às pessoas que encontrava pelo caminho.
A primeira experiência missionária fora da Itália aconteceu ainda em 1934, na Índia. Anos depois, após a sua morte, os Pobres Servos chegaram à América Latina: No Uruguai em 1959 e ao Brasil em 1961, quando se estabeleceram em Porto Alegre, dando início a uma história de transformação social no país por meio de diferentes ações.
Entre elas está a Rede Calábria, que há mais de 60 anos está no Rio Grande do Sul com a missão de “acolher promovendo vidas”. Hoje, são 70 unidades e mais de 7,5 mil pessoas alcançadas diariamente por ações organizadas em três causas: Assistência Social, Educação e Qualificação Profissional.
Quem visita as unidades da instituição e acompanha seus projetos – seja na Educação Infantil, na Educação Integral, no Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos, no Trabalho Educativo, nos cursos de qualificação profissional, no Serviço Especializado de Abordagem Social, no Acolhimento Institucional ou em tantas outras iniciativas – percebe uma coisa em comum.
Por trás de cada atividade, há uma presença. Um jeito de olhar. Uma forma de se aproximar e reconhecer, antes de qualquer vulnerabilidade, a vida que está diante de si.
É a face de um menino, de um homem que se tornou santo não por vaidade, mas porque fez da própria vida um caminho de entrega e renúncia de si pelos mais vulneráveis.
A força de uma Obra que atravessou fronteiras e culturas está em sua origem. Ela pertence a Deus e encontra, em seus filhos e filhas, diferentes formas de se manifestar. Em São João Calábria, encontrou a disposição necessária para acolher esse chamado.
Com 51 anos de vida religiosa, Ir. Noivar Brustolin possui uma trajetória construída em diferentes frentes da Obra,como o carisma se expressa em diferentes realidades.

Religioso desde 1975, atuou no Brasil, na Itália e em Angola, passando por atividades de formação profissional, gestão e coordenação de obras, além de acompanhar de perto iniciativas nas áreas da educação, saúde e assistência.
A experiência em diferentes países também lhe permitiu perceber aquilo que permanece como fio condutor da missão calabriana. Estar onde a necessidade é maior e, a partir de cada realidade, anunciar que Deus é Pai.
Em alguns territórios, às vezes as necessidades exigem capacitações específicas para os jovens, de acordo com a demanda de áreas de atuação mais deficitárias, como era o caso da enfermagem em Marituba, no Pará.
“As atividades em todos os continentes, em todos os países onde estamos presentes tem sempre o foco a quem mais precisa”, ressalta ele.
A Obra não se constrói como algo engessado. Ela primeiro olha para a realidade e responde à necessidade real do lugar onde se estabelece.
Para Ir. Noivar, é justamente essa atenção que revela um sentido muito maior. Não é sobre reproduzir atividades, trata-se de manter vivo o propósito que esteve no coração de São João Calábria.
“A Obra não é para fazer isso, ou aquilo. É para manifestar ao mundo que Deus é Pai. Se Deus é Pai, ele se preocupa com aqueles mais vulneráveis”, complementa.
Calábria já não está fisicamente entre nós, mas o que Deus manifestou por meio de sua vida continua encontrando almas caridosas dispostas a viver esse jeito de ser e de fazer. Almas que se deixam moldar pela Divina Providência, como trapos e argila, para transformar suas próprias trajetórias e tantas outras que encontram pelo caminho.
O carisma calabriano atravessou oceanos, alcançando novos territórios, comunidades e foi se moldando a diferentes culturas, incorporando formas de viver a mesma missão. A Obra alcançou países da Europa, das Américas, da África, da Ásia e da Oceania, encontrando em cada lugar uma realidade própria, mas levando consigo uma mesma raiz: a confiança em Deus, a fraternidade e o serviço aos mais necessitados.
Talvez, a característica mais marcante deixada por esse homem santo tenha sido o espírito de família, conforme consta na primeira regra de 1908, que iniciava: “Olhem-se como irmãos…”. Segundo Pe. Gustavo Bonassi, isso faz com que todos se reconheçam nessa missão e passem a multiplicar a caridade.
“Todos têm o mesmo reconhecimento e dignidade. Inclusive, ele mesmo dizia para os padres e irmãos: o padre celebrando missa ou o irmão cuidando do jardim tem a mesma importância. Por isso, valorizar as diferenças, os dons e vocação de cada um nos faz sermos cooperadores da Obra e da missão”,



Hoje, a missão inspirada por São João Calábria está presente em 14 países e no Brasil em 8 estados. Em 2023, a Congregação dos Pobres Servos da Divina Providência registrou mais de 160 mil pessoas alcançadas por suas iniciativas, com cerca de 8.600 colaboradores.
É uma história que começou pequena, mas nunca foi pensada para ficar parada. Ela está em constante movimento, possibilitando que a Providência Divina opere através de homens e mulheres, leigos e religiosos, que fazem a caridade se manifestar como o sol, cujos raios penetram em todos os lugares e continuarão a iluminar o percurso de sua missão.
“Do fundo do meu coração invoco sobre vocês todo verdadeiro bem. Que o Senhor lhes aumente sempre mais o seu amor, e quanto a vocês, ricos da caridade divina, que possam continuar a sua grande missão de irmãos desta grande Obra que leva escrito na fronte: Obra de Deus.” – São João Calábria
