Ação Rua fortalece o direito à moradia por meio da abordagem social humanizada, abrindo caminhos para políticas públicas e transformação social
Há um ano, a rua deixou de ser o endereço fixo de três histórias marcadas pelo abandono e invisibilidade social, mas que hoje se tornaram exemplos vivos de que sempre é tempo de recomeçar e cultivar a esperança em dias melhores. Após anos vivendo em vulnerabilidade social nas ruas de Porto Alegre, essas pessoas conquistaram suas moradias e iniciaram a reconstrução de suas vidas por meio de um grande instrumento da Divina Providência: o projeto Ação Rua, da Rede Calábria. Atuando como ponte para o resgate da dignidade humana, o serviço é feito por pessoas dispostas a irem “onde não há nada a se esperar humanamente.”
A iniciativa, desempenhada pela equipe do Serviço Especializado de Abordagem Social (SEAS), tem como missão identificar demandas e promover ações que assegurem o acesso aos direitos da população em vulnerabilidade e em contexto de rua, bem como de crianças vítimas de trabalho infantil ou doméstico. De forma contínua e comprometida, a equipe atua na desafiadora tarefa de transformar realidades marcadas pela exclusão, onde faltam as condições mínimas de dignidade. Uma contribuição fundamental para a reconstrução da identidade e no acesso à diversas políticas públicas imprescindíveis para recuperação e reinserção social dessas pessoas.

Criado em 2006, era voltado ao atendimento de crianças, sendo ampliado em 2015 para contemplar também a população adulta. Com uma equipe multidisciplinar, composta por assistentes sociais, psicólogos e educadores sociais, eles estão presentes dentro do território centro-sul e Sul, atendendo diariamente solicitações e realizando abordagens a partir de um mapeamento constante nos bairros Camaquã, Cavalhada, Nonoai, Teresópolis, Vila Nova, Vila Assunção, Tristeza, Vila Conceição, Pedra Redonda, Ipanema, Espírito Santo, Guarujá, Serraria, Hípica, Campo Novo, Jardim Isabel, Aberta do Morros e Sétimo Céu.
As abordagens têm um foco humanizado, fundamentadas nos princípios de São João Calábria. Em um primeiro momento, cheias de presença e cuidado, buscam compreender e atender as necessidades imediatas para depois articular uma reorganização na vida daqueles que se dispõem e se permitem mudar. Muitos casos levam anos para uma recuperação total. Começam por uma aproximação gradual, que culmina em laços de confiança até o beneficiário ingressar no plano de acompanhamento.
“A gente propõe uma mudança naquele contexto, ofertando possibilidades, que não essa da rua, mas sempre respeitando o desejo, fomentando isso com eles para que possam acessar espaços como restaurante popular, centros pop, albergues, abrigos…” – Janaina Rosa Pedroso, coordenadora do SEAS – Ação Rua da Rede Calábria


Até maio de 2025, um levantamento do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, da Universidade Federal de Minas Gerais, contabilizou 5.799 pessoas vivendo esse tipo de vulnerabilidade social em Porto Alegre/RS. A capital gaúcha é uma das cidades com maior índice no Sul do país. No entanto, quem lidera é a região sudeste do Brasil, abarcando 60% dos moradores de rua em capitais como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Em uma atuação que se dá de forma conjunta com o poder público, o projeto do Ação Rua faz a conexão com os serviços socioassistenciais como Centro Pop, CREAS, Rede de Saúde, CAPS, Conselho Tutelar, Subprefeituras, Rede de Educação, CRAS e Consultório na Rua. À medida que a situação do atendido vai apresentando progresso, são abertos caminhos como o auxílio moradia entre outras possibilidades.
Atualmente, são 95 pessoas que seguem em atendimento contínuo pelas equipes. Somente em 2025 foram 1396 abordagens realizadas, destas 385 por via de canais de solicitação. Um trabalho feito em etapas que pode parecer lento à primeira vista, porém com resultados reais e significativos.
As necessidades mais urgentes são identificadas em primeiro lugar – geralmente alimentação, documentação, atendimento médico e higiene pessoal. A partir disso, a equipe constrói, junto com a pessoa atendida, um percurso para que ela possa sair daquela condição aos poucos. Todo o processo é realizado com cuidado e respeito à vontade individual, cultivando e fortalecendo vínculos, por meio do olhar atento e atitudes que acolhem e reconhecem a dignidade de cada pessoa.
Luiza Carla, João Carlos e Rubens são frutos desse trabalho que evidencia como o amor e a compaixão são capazes de mudar trajetórias. Através desse acolhimento, tiveram suas vidas transformadas, retomando sua dignidade. Uma jornada longa, mas recompensadora, que resgatou o direito à moradia. O trabalho conjunto com as equipes, que não desistiram dessas vidas, foi capaz de reverter uma situação de décadas vivendo nas ruas sob violação de direitos básicos.
Franciele Biscarra, Educadora Social do Ação Rua, conta um pouco sobre como foi o processo de cada um. Ela relembra, desde o primeiro contato, os desafios da aproximação e momentos marcantes do processo com muito carinho. Na primeira abordagem, Luiza se negou a conversar com a equipe. Foi somente um tempo depois, durante uma visita em outra comunidade, que Franciele a avistou e conseguiu convencê-la para uma conversa. Neste instante, um vínculo foi criado.
Luiza passou então a procurar os atendimentos, ainda que no início tenha sido com dificuldades. Ela também apresentava resistência ao acompanhamento no CAPS, em decorrência da dependência química. Segundo a educadora social, quando começaram a se aproximar mais, foi possível o encaminhamento de vários benefícios, como o BPC – Benefício de Prestação Continuada, auxílio financeiro no valor de um salário mínimo, e até mesmo o seu ingresso em um curso de auxiliar administrativo e hotelaria com duração de um ano.
O espaço que ela acessava quando estava em situação de rua acabou transformando-se no local de trabalho, onde passou a acolher e atender pessoas que, assim como ela, vivenciavam graves privações de direitos. Hoje seu momento de vida é outro, mas segue sendo acompanhada e amparada pela equipe.

“Pelo que já passei na rua, hoje é totalmente diferente. Antigamente eu deitava minha cabeça, mas não dormia, eu só cochilava porque eu precisava ficar me cuidando. Hoje eu durmo e descanso. É outra vida”, conta Luiza sobre o passado.
Ser mulher traz ainda mais desafios para quem vive a perspectiva das ruas. Significa ser alvo frequente de violências de todos os tipos. Sem espaços seguros e próprios para elas, as vulnerabilidades e violações de direitos são intensificadas. Em alguns casos, sujeitando-se a parceiros que protegem de outros, mas que perpetuam e impõem agressões físicas, sexuais e psicológicas.
De acordo com dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), citados no Relatório da Consulta Pública “As Formas de Violência contra a População em Situação de Rua” (2025), mulheres compõem cerca de 13% desse público, mas que respondem por 40% das notificações de violência.
“Eu nunca me envolvi em grupos com outros moradores de rua, eu sempre ficava sozinha. É difícil uma mulher sozinha na rua, ainda mais quando começa a cair a noite”. – diz ela.
A vida de Luiza mudou completamente. Uma conquista gradual rumo a um novo capítulo de sua história. Hoje, ela expressa sua gratidão àqueles que considera amigos e irmãos: a equipe de abordagem, que seguiu acreditando nela quando nem mesmo ela acreditava.
“Ela conseguiu sair do espaço da rua, tem uma casa que aluga, faz os seus trabalhos e está conseguindo manter esse espaço, além dos vínculos afetivos com os familiares”. – Franciele Biscarra, Educadora Social do Ação Rua
Outros casos são o de idosos, que compõem um grande público de atendidos. Em decorrência do alcoolismo, muitos acabam se encontrando nas ruas e em situação de abandono. Uma dessas histórias é a de João Carlos Ribas, um dos primeiros a ingressarem na República de Idosos da Rede Calábria ao inaugurar o projeto. Com uma personalidade forte e de iniciativa, ele assumia uma postura de líder no lugar, tendo inclusive adquirido com o dinheiro de sua aposentadoria um aparelho de televisão em benefício de todos os acolhidos.
Durante um certo período, João Carlos até mesmo arrumou uma namorada, morou com ela algum tempo, mas acabou não dando certo e retornou para a mesma condição de antes. No entanto, conseguiu contatar o serviço para a busca de um espaço de proteção, retornou para a república e saiu após um tempo de reorganização pessoal. Hoje ele mora de aluguel e administra suas contas com o dinheiro da sua aposentadoria.
Um caso emblemático é o de Rubens. De nacionalidade uruguaia, veio para o Brasil há 40 anos sem nunca ter feito qualquer tipo de documento de identificação por medo de ser deportado. Sem qualquer acesso às políticas públicas brasileiras, a tarefa inicial foi a regularização de toda sua documentação. A partir desse movimento é que conseguiu receber o bolsa família, sendo incluído também no aluguel social. No entanto, anos sem ter o mínimo de condições dignas, trouxe muitos obstáculos à adaptação com a nova realidade.
“Na época ele acabou retornando para as ruas. Com o tempo e com as fragilidades da condição, a gente conseguiu para ele a aposentadoria por idade. Hoje ele está recebendo e extremamente feliz, nós não desistimos dele e sempre íamos atrás para que não permanecesse nessa situação”, afirma Franciele Biscarra.
Muitas vezes a sociedade e as pessoas em geral, tendem a simplificar a solução para aqueles que vivenciam essa dura realidade. É comum, no dia a dia, ouvir em diálogos cotidianos que basta querer e arrumar um emprego para que as coisas mágicamente mudem. No entanto, a questão é muito mais profunda, ela abrange a complexidade do ser humano com todas suas facetas que o compõem em suas diferenças como indivíduos. O contexto pessoal e o percurso que o fez chegar onde está, são fatores determinantes sobre o tempo de sua recuperação.
Tampouco é um processo linear, recaídas acontecem, e o tempo de cada um deve ser respeitado para que se consiga alcançar o objetivo final. Segundo Maurício Souza, assistente social do Ação Rua, nas abordagens é frequente se deparar com pessoas que não sabem nem mesmo do que precisam, estão tão fragilizadas e acostumadas com a ausência de qualquer cuidado básico que torna-se complexo o reconhecimento dessas necessidades.
Nessas circunstâncias, ao longo da abordagem, se faz o que a equipe chama de “empréstimo de desejos”, que é quando, mediante a análise do indivíduo, as carências e demandas são determinadas pelos profissionais e encaminhadas para que sejam supridas. Ainda de acordo com Mauricio, existem casos e casos. Às vezes em uma semana, um mês, as coisas podem evoluir. Tudo varia de acordo com o tempo interno da pessoa, mas também pode levar anos. Ele menciona situações onde somente após cinco anos de trabalho que a “virada de chave” acontece e impulsiona uma ação concreta para a mudança estrutural na vida do atendido.
“A gente não pode pensar em um tempo exato [de recuperação], não é um relógio, um cronômetro. Essas pessoas tem o tempo delas e esse tempo nem sempre é o que a gente gostaria, nem sempre é o que a sociedade imagina”. esclarece ele.


Entre as motivações que levam a equipe a estar diariamente nas ruas está o desejo genuíno de fazer a diferença em contextos onde a presença se torna urgente e indispensável. Trabalhar com pessoas que vivem em situações extremas de vulnerabilidade, exige não apenas competências técnicas, mas, sobretudo, sensibilidade e compromisso humano.À luz do carisma calabriano, sustentado pela confiança na Divina Providência, esses valores orientam uma atuação voltada à reconstrução integral da vida das pessoas acompanhadas. A abordagem social dialoga profundamente com aquilo em que São João Calábria acreditava: a escuta atenta, a proximidade e a busca pela compreensão, livres de julgamentos ou discriminações, como fundamentos para a construção de vínculos verdadeiros. Mesmo diante das frustrações e dos limites do trabalho cotidiano, permanece a esperança e o empenho em redirecionar trajetórias e ressignificar histórias de vida.
“Mesmo sabendo que de 100 casos, somente 10 terão essa mudança, já teremos feito a diferença. E isso é o que nos motiva a continuar para alcançar os outros”, afirma Maurício.
Histórias como as de Luiza, João Carlos e Rubens, nos mostram que a transformação social, não é imediata, mas possível através da constância de cuidado, paciência e na confiança de que toda vida carrega em si a possibilidade de recomeço. O Ação Rua reafirma diariamente em sua atuação, em cada abordagem, que a garantia de direitos é restaurar a dignidade humana e a cidadania, respeitando tempo, limites e escolhas individuais. Em cada escuta, um vínculo se forma, por meio de cada gesto concreto, a certeza de que ninguém é invisível. Mesmo nos contextos mais desafiadores, um futuro digno segue sendo um caminho, quando se caminha junto.