Em uma realidade marcada por profunda desigualdade social, na qual milhares de pessoas vivem em extrema vulnerabilidade e seguem privadas do direito à moradia digna, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) lançou a Campanha da Fraternidade de 2026 com o tema Fraternidade e Moradia. A iniciativa convida à reflexão, a um olhar mais atento e ao cuidado concreto com aqueles que permanecem invisibilizados pela sociedade. A Campanha propõe a moradia digna como prioridade e direito fundamental, inseparável do acesso aos demais bens e serviços essenciais para a vida e a dignidade de toda a população.
Realizada anualmente durante o período da Quaresma, a Campanha da Fraternidade é promovida pela Igreja no Brasil como um caminho de conversão, solidariedade e compromisso social. A primeira edição teve início em 1961, a partir de uma experiência realizada em Natal (RN), quando Dom Eugênio de Araújo Sales, Dom Heitor de Araújo Sales e o leigo Otto de Brito Guerra articularam uma ação pastoral voltada à sensibilização e ao auxílio às populações mais pobres. A proposta rapidamente ganhou alcance nacional, tornando-se um dos mais importantes instrumentos de reflexão e mobilização social da Igreja no país.
Em 2025, a Campanha da Fraternidade teve como tema Fraternidade e Ecologia Integral, abordando a preocupação com o cuidado do meio ambiente e da Casa Comum, tendo como lema: “Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1,31). A escolha foi motivada pelos 800 anos do Cântico das Criaturas, de São Francisco de Assis, pelos 10 anos da publicação da Carta Encíclica Laudato Si’ e pela recente Exortação Apostólica Laudate Deum, além da celebração dos 10 anos da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM) e da realização da COP 30, em Belém (PA).
Neste ano de 2026, a Campanha Fraternidade e Moradia, cujo lema é “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), inspira-se na proximidade de Deus com a humanidade e provoca a reconhecer e enxergar as milhares de vidas que sobrevivem à margem, nas sombras das ruas. Sem se limitar a uma escuta passiva, a Campanha convoca à ação transformadora, por meio da mobilização conjunta da sociedade, da Igreja e do poder público.
Nesse sentido, propõe objetivos específicos que orientam sua ação, como o olhar para a realidade da falta de moradia sem a culpabilização das pessoas em situação de rua; a identificação das lacunas deixadas pelo poder público e pela sociedade civil na garantia desse direito; e o estímulo a iniciativas pastorais, governamentais e de organização popular voltadas à sua efetivação.
Busca, ainda, promover a conscientização, à luz da Palavra de Deus, sobre a necessidade sagrada de teto, terra e trabalho para todos; questionar a compreensão deturpada da moradia como mercadoria, objeto de especulação ou mérito exclusivamente individual; fortalecer a presença e o compromisso da Igreja junto aos mais pobres e aos movimentos populares; e empenhar-se na implementação de leis e políticas públicas que contemplem, de forma efetiva, a população em situação de rua.
Segundo o último levantamento do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, da Universidade Federal de Minas Gerais (OBPopRua/UFMG), divulgado no final de 2024, são 327.925 pessoas vivendo nessas condições em todo o país. Trata-se de um aumento alarmante, 14 vezes superior ao número registrado onze anos atrás, quando havia 22.922. Entre as capitais brasileiras, Porto Alegre ocupa posição de destaque entre as cidades com elevados índices dessa dura realidade. São 5.373 vivendo nessas condições na capital gaúcha, representando um aumento de 32%. Ao ampliar o olhar para o Rio Grande do Sul, o total chega a 14.343 pessoas.
A região Sudeste concentra a maior parte da população de rua do país, com aproximadamente 60% do total, especialmente nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Estima-se que esses números tenham continuado a crescer ao longo de 2025. Apesar disso, não existem, atualmente, dados oficiais do Censo Demográfico do IBGE, que não mensura sistematicamente a população em situação de rua. Hoje, estimativas abrangentes no Brasil são disponibilizadas apenas por meio de estudos acadêmicos e dados do Cadastro Único, o que evidencia ainda mais a invisibilização dessa realidade.
O lema bíblico adotado pela Campanha de 2026, destacado no centro do cartaz, remete à escolha de Deus de habitar entre os mais frágeis e vulneráveis, aqueles marginalizados pela sociedade. Em diálogo com essa mensagem, o símbolo da cruz e da Igreja nos recorda a missão de sermos os Evangelhos vivos, reafirmando o compromisso de acolher, com presença e cuidado, os que mais sofrem, reconhecendo neles o rosto do próprio Cristo.
