Em 30 de agosto de 1961, desembarcaram no Brasil os primeiros Pobres Servos da Divina Providência, vindos do Uruguai. Trouxeram consigo não apenas malas, mas também o entusiasmo e a força espiritual que inspiraram o Padre João Calábria a fundar a Congregação na Itália.
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Entre os relatos preservados na memória da Obra, destaca-se o do Pe. Gino, registrado na revista A Ponte por ocasião do décimo aniversário da Congregação no Brasil.
Ele recorda com gratidão a acolhida recebida: “Lembro, com senso de reconhecimento, da Irmã Antonieta, superiora das Paulinas, que nos tratou como filhos”.
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A chegada desses missionários marcou o início de uma caminhada de fé e serviço que, ao longo dos anos, transformou-se em presença concreta junto à juventude e às famílias brasileiras. O gesto simples de hospitalidade se tornou símbolo do espírito de fraternidade que sustentou os primeiros passos da Obra no país.
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Com a chegada a Porto Alegre, o desafio era claro: era hora de começar a trabalhar. Dom Vicente Scherer confiou aos recém-chegados o cuidado pastoral das vilas da periferia da Capital, tarefa iniciada sem demora. O trabalho, no entanto, era itinerante, já que a comunidade ainda não possuía uma sede.
Em artigo publicado na revista A Ponte, por ocasião do 25º aniversário da Congregação no Brasil, o Pe. Antonio Leso relembrou com humor aquele tempo: “O telhado concêntrico da nossa habitação provisória da Rua Allan Kardec, naquele início de primavera, nos proporcionava abundantes chuvas internas. Andar de guarda-chuva dentro de casa ou tomar duchas frias fora do banheiro era um comportamento esquisito”.
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As dificuldades do início, porém, não desanimaram o grupo. Pelo contrário, reforçaram a convicção de que era preciso fincar raízes. Foi então que o Pe. Gino proclamou o que seria lembrado como um verdadeiro grito de independência: “Precisamos de um pedaço de terra para plantar a Obra do Senhor.”
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A decisão abriu caminho para que a Congregação encontrasse um espaço próprio, onde pudesse estruturar sua presença e expandir seu trabalho pastoral e educativo. O desejo por um “pedaço de terra” não era apenas uma necessidade prática, mas o símbolo de uma missão que, desde então, se enraizou no coração de Porto Alegre e continua a dar frutos até hoje.
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No final de setembro de 1961, o Pe. Theodoro Chaves, amigo dos missionários que auxiliava na busca por um terreno, chegou à modesta casa alugada na Rua Allan Kardec com uma notícia encorajadora: havia um espaço de oito hectares à venda na Rua Aracaju. O caminho, porém, não foi fácil.
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Faltava dinheiro e, quando o valor enfim foi providenciado, o proprietário desistiu da venda. Enquanto isso, a situação na casinha alugada se tornava insustentável. Confiantes de que o negócio da Aracaju daria certo, os missionários cancelaram o contrato de aluguel e, por alguns dias, ficaram literalmente sem teto.
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Mais uma vez, as Irmãs Paulinas abriram as portas para acolhê-los, até que, após novas tratativas, a negociação finalmente se concretizou. No dia 3 de novembro de 1961, os Pobres Servos entraram na casa da Rua Aracaju, que se tornaria não apenas a sede da Província Brasileira da Congregação, mas também o berço do Centro de Educação Profissional São João Calábria — marco do início de uma história que continua viva até hoje.
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Foi no dia 3 de novembro de 1961 que a comunidade dos Pobres Servos finalmente tomou posse do terreno da Rua Aracaju, número 650. A chegada, porém, teve um detalhe curioso: segundo o relato bem-humorado do Pe. Gino, não foi possível entrar pela porta, que estava trancada. O jeito foi começar a nova etapa de missão passando pela janela da pequena casinha que marcaria o início da história da Obra no local.
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A história do Centro de Educação Profissional São João Calábria se confunde com a própria chegada da Congregação Pobres Servos da Divina Providência ao Brasil. Em 1962, apenas um ano após a instalação em Porto Alegre, o Centro tornou-se a primeira atividade da Obra no país, inaugurando uma trajetória dedicada à formação e à promoção da juventude. Nos anos seguintes, o Calábria começou a ganhar a forma sonhada no projeto inicial, com a construção da capela, das salas de aula e de outros espaços fundamentais para a vida comunitária e educativa.
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Pouco depois da fundação, já estavam em funcionamento o ginásio esportivo e a escola profissional destinada a alunos do primeiro e segundo graus. Em 1966, ampliando ainda mais sua atuação, foram iniciados os cursos de Artes Gráficas e Tornearia Mecânica, que marcaram o início de uma tradição de formação técnica voltada para a inserção dos jovens no mundo do trabalho.
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A cada nova construção, multiplicavam-se também as experiências vividas pela comunidade. As primeiras turmas de estudantes, os encontros na capela recém-erguida, os jogos no ginásio e as oficinas de aprendizado técnico passaram a dar vida ao espaço. O terreno que antes era apenas um campo aberto começava a se transformar em um verdadeiro centro de formação, marcado pelo esforço coletivo e pela esperança de dias melhores para a juventude.
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Criado em 1967, o curso de marcenaria levava o aluno a evoluir gradualmente, começando com pequenos trabalhos manuais e avançando, ao longo do curso, para o manejo de ferramentas e máquinas mais complexas. Ao final, os estudantes eram capazes de confeccionar móveis de variados tamanhos e modelos, com requinte e acabamento de alta qualidade, refletindo dedicação e domínio técnico.
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Em 1971, o Calábria deu mais um passo importante na formação técnica de seus alunos com o início dos cursos de Mecânica e Chapeação. Essas novas modalidades possibilitaram que os estudantes adquirissem habilidades práticas e específicas, preparando-os para o mercado de trabalho em setores industriais em crescimento.
Assim, o Centro se consolidava como um espaço de aprendizado diversificado, unindo teoria e prática e fortalecendo sua missão de promover oportunidades reais para a juventude.
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Em 1996, o início do curso de informática trouxe uma nova dimensão ao Calábria, sinalizando a chegada da tecnologia e a atualização das práticas educacionais. A instituição continuava a evoluir, registrando suas atividades de forma mais dinâmica e acompanhando as mudanças do mundo, enquanto a história do aprendizado e do crescimento dos alunos seguia seu curso.
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Em 2002, o Calábria passou por uma importante fase de expansão e modernização. A auto-mecânica foi ampliada, um novo pavilhão foi construído para a gráfica e os demais espaços passaram por reformas gerais, oferecendo ambientes mais adequados e confortáveis para o aprendizado.
Junto a essas melhorias, foram adquiridos novos equipamentos, fortalecendo a qualificação profissional e reafirmando o compromisso da instituição com a formação técnica de excelência.
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Em 2016, a gestão do Calábria foi integrada à do Centro de Promoção da Infância e da Juventude (CPIJ), que também desenvolve diversas iniciativas sociais e coordenava escolas de educação infantil em parceria com a prefeitura.
Essa união representou o primeiro passo para a criação, em 2020, da Rede Calábria, que passou a incorporar o Calábria, o CPIJ, a educação infantil e a Associação Beneficente Nossa Senhora da Assunção, fortalecendo a atuação da instituição e ampliando seu impacto na comunidade.
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“Além de estarmos interligados enquanto rede, vamos unificar o processo de comunicação, desenvolvimento institucional e engajamento para as causas pelas quais investimos forças, energias e podemos dizer que é nossa contribuição social” – Conselho Operacional.
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Da primeira escola regular, inaugurada em 1962, e dos cursos de qualificação da mesma década, o Calábria se transformou em uma instituição de grande impacto social. Atualmente, atendemos diariamente mais de 6 mil pessoas, atuando em todos os níveis da proteção social, além da educação infantil, e estamos presentes em seis municípios: Porto Alegre, Viamão, Farroupilha, Encantado, Muçum e Vespasiano Corrêa.
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Marcenaria (E) e Educação Infantil (D)
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A frase “A Obra é para os tempos atuais” ilustra bem como o carisma e a devoção aos ensinamentos de São João Calábria foram decisivos para todas as transformações e adaptações às novas demandas e vulnerabilidades da sociedade. Como lembrava o próprio fundador: “Hoje começo de novo”, lema que segue guiando a trajetória da instituição, mantendo viva a essência de acolhimento e serviço que marcou seus primeiros passos.