Hoje, a Rede Calábria celebra dois anos de atuação no município de Muçum/RS, promovendo vidas por meio da educação infantil. Entre desafios, aprendizados e momentos marcantes, a Rede segue levando um jeito diferente de ser e fazer para dentro de quatro escolas, construindo histórias junto à comunidade e compartilhando vivências únicas entre professores e crianças. Essa caminhada acontece diariamente na EMEF Castelo Branco, EMEF Jardim Cidade Alta, EMEI Família Feliz e EMEI Pingo de Gente, onde educar também é acolher e semear futuros.
Essa forma de educar encontra base nos cinco passos da pedagogia calabriana: ver, inclinar-se, sacudir suavemente, reconhecer e acolher. Mais do que conceitos, eles orientam o cotidiano das escolas. O olhar atento que observa cada criança, a aproximação sensível que cria vínculo, o estímulo cuidadoso que provoca descobertas, o reconhecimento da singularidade e o acolhimento como ponto de partida para todo aprendizado.
Tudo começou a partir dos frutos gerados pelo trabalho desenvolvido em Encantado/RS. Ao identificar o potencial do método de ensino e o compromisso com uma formação integral e humanizada, a Prefeitura de Muçum/RS formalizou o convite à instituição para atender à demanda por profissionais da educação em seu território.
Os impactos foram rapidamente percebidos, pais e responsáveis começaram a expressar de forma espontânea mudanças positivas observadas nas crianças. Por meio dos acompanhamentos semanais, eles também se sentiram pertencentes e participativos na evolução da aprendizagem de seus filhos.
“O que eu mais admiro é a forma com que a Rede coloca o interesse das crianças no centro de tudo. As propostas são realizadas a partir da curiosidade de cada uma, respeitando o seu tempo. A Catarina expandiu o mundo imaginário, a criatividade e se tornou uma criança mais confiante” -Thaís, mãe da Catarina, da EMEF Castelo Branco.
Para aqueles que vivenciam a pedagogia calabriana, não há dúvidas quanto à efetividade do método e os efeitos positivos que ele traz na qualidade do aprendizado. Trata-se de uma proposta leve e acolhedora, que desperta o desejo de estar na escola e de aprender, superando uma cultura restrita às salas de aula. Ao valorizar a experiência, o vínculo e a escuta, ela parte do ver, um olhar atento para a infância, e do inclinar-se, que aproxima o educador da realidade infantil. A partir daí, o aprendizado acontece como um sacudir suave, que provoca curiosidade e autonomia sem passar por cima do tempo de cada um.
“É muito importante para o desenvolvimento do José. Lá ele encontra acolhimento, cuidado e atividades que realmente estimulam sua autonomia e seu aprendizado. As propostas e vivências fazem ele crescer de forma linda, sempre voltando para casa com uma descoberta nova.” – Letícia, mãe de José Pedro, EMEI Família Feliz.
Fortemente prejudicada pelas enchentes de 2024, a EMEI Família Feliz precisou passar por reformas estruturais. Impossibilitada de atender as crianças, os educandos foram direcionados para a EMEI Pingo de Gente para que o aprendizado não fosse comprometido. Em 30 de janeiro, após os reparos e melhorias realizados em conjunto com voluntários e a Prefeitura Municipal, a escola estava pronta para receber novamente os pequenos e proporcionar momentos enriquecedores, com propósito e cheios de experimentações e descobertas.
Parte desse movimento de reconstrução incluiu uma rede solidária formada entre a Rede Calábria, o Instituto Mari Johannpeter e as instituições Voar Singular e Escola Despertar. A iniciativa integrou as ações da Residência Pedagógica, que fortaleceu as atividades educacionais no município após 2024. Ao todo, foram investidos cerca de R$ 80 mil em mobiliário, brinquedos e materiais pedagógicos destinados às escolas municipais, contribuindo para a criação de ambientes ainda mais acolhedores e favoráveis ao processo de aprendizagem.Cada mobília foi pensada com um propósito: permitir que as crianças explorem, criem e se expressem no espaço projetado para elas. A iniciativa foi bem recebida pelo prefeito de Muçum/RS, Mateus Trojan, que expressou sua gratidão pela colaboração em benefício da qualificação do ensino no município.
O retorno da escola também demonstra o princípio essencial do acolher. Um gesto coletivo de cuidado, que garantiu às crianças a continuidade de vínculos, segurança emocional e pertencimento em um período delicado.


Um grande evento, realizado anualmente na Praça da Matriz, colocou em evidência o protagonismo infantil para a população do município. Longe de ser uma apresentação expositiva comum, a Mostra Pedagógica tem o objetivo de documentar a trajetória dos pequenos em sua jornada pedagógica.
É uma construção de coautoria entre crianças, professoras e famílias, que convida quem passa pelo espaço a compreender as vivências e o papel da escola como facilitadora na promoção da vida e no desenvolvimento de saberes. Os trabalhos apresentados tinham como temática diferentes culturas como a africana, italiana, espanhola, alemã, japonesa e indígena.
A mostra contou com painéis de documentação, instalações interativas, registros audiovisuais, espaços de experimentação e materiais construídos pelas próprias crianças. Tudo foi organizado em uma trilha narrativa que permite a imersão dos visitantes, despertando a sensação de percorrer esse caminho ao lado dos pequenos.
A experiência revela descobertas e transformações do cotidiano, promovendo partilha e sentido, além de possibilitar a compreensão do valor educativo presente nas vivências diárias.O evento foi um grande sucesso. O ambiente, preenchido por cores e vida, tornou-se palco de celebração e integração entre todos, ressaltando a importância dessa união na formação infantil.
Aqui se manifesta outro passo fundamental, o do reconhecer. Ao documentar as trajetórias das crianças, as escolas legitimam suas descobertas, dão visibilidade às aprendizagens e afirmam o protagonismo infantil como parte do processo educativo.





A proposta pedagógica diferenciada conquistou os moradores de Muçum desde o início. As atividades práticas e lúdicas, que unem o saber ao fazer, chamaram a atenção de famílias que buscaram a rede municipal justamente por essa forma de educar.
Para Débora, mãe do educando Caetano, da EMEI Pingo de Gente, a principal diferença está na ampliação do olhar da criança a partir da observação do ambiente. O incentivo à exploração e à experimentação acelera e potencializa o desenvolvimento de qualidades e capacidades que dificilmente floresceriam em métodos que ignoram a integralidade do ser.
Ao aprender interagindo com o mundo, a criança constrói autonomia, curiosidade e repertório para se movimentar com segurança em diferentes contextos.
“Ela integra tudo que o mundo oferece para o desenvolvimento dele de uma forma segura e saudável, aproveitando o potencial do ambiente para que ele tenha essa potência transformadora. Um conhecimento das coisas que fazem parte da vida, para que possa florescer em diferentes espaços.” – Débora, mãe de Caetano, EMEI Pingo de Gente
O conhecimento é indissociável da vivência, pois é nela que ele se consolida e ganha significado. Esse princípio orienta a forma como o aprendizado é construído com ela, facilitando a compreensão e a retenção dos conteúdos. As atividades desenvolvidas ao longo do ano partem da pluralidade, promovendo a convivência pacífica e o respeito entre diferentes pontos de vista, assim como o reconhecimento da diversidade humana, religiosa e étnico-cultural.
No mês da Consciência Negra, as turmas da Pré-Escola mergulharam no universo da cultura africana. As atividades, que também fizeram parte da Mostra Cultural, ampliaram seus horizontes ao conhecerem diferentes expressões artísticas. Uma delas foi a confecção de máscaras africanas de gesso. A partir da imersão em sua história e significado, compreenderam a perspectiva de ancestralidade e a conexão com a natureza presente nos povos africanos.
Por meio de conversas e da escuta de histórias, descobriram que cada máscara possui uma finalidade, sendo utilizada em rituais, festas e danças tradicionais da África. Após essa introdução, as professoras incentivaram a construção de uma peça moldada a partir do rosto de cada um, promovendo uma experiência artística e sensorial única, que trabalhou aspectos motores, expressão, autopercepção e respeito às diferenças.
Outra atividade de destaque surgiu a partir da escuta da história Através da Minha Janela, onde elas foram convidadas a refletirem sobre as paisagens presentes em seu dia a dia. Em uma construção coletiva de uma grande janela, representaram suas percepções visuais diárias e as compararam com cenários do continente africano, o que estimulou a imaginação e proporcionou uma imersão naquela perspectiva.


Dentro da proposta pedagógica, o jeito calabriano de fazer educação mostra que não apenas é possível aprender brincando, como também colocar a criança no centro do processo. A infância é um tempo de desenvolver potencialidades, não de podá-las. Nesse contexto, a função do educador é essencial – não como o centro, mas como facilitador do aprendizado.
No cotidiano das turmas, os cinco passos do nosso fazer se tornam experiência concreta. O educador vê, observa e escuta; inclina-se, aproximando-se da criança; sacode suavemente, provocando estímulos; reconhece o seu próprio tempo; e acolhe em cada etapa do processo. Quando o conhecimento é vivenciado de forma lúdica e intencional, a transformação se torna visível no modo como as crianças se relacionam com o mundo, com o outro e consigo mesmas.

“Eu percebo as crianças com muito mais autonomia. o aprendizado ganhou uma centralidade maior, respeita muito o tempo da infância e as experiências deles ficaram muito mais significativas” , avalia Julia Pellegini, coordenadora da educação infantil da Rede Calábria em Muçum.
Mas essa construção não aconteceu de um dia para o outro. Por trás dos resultados visíveis existe um trabalho silencioso de planejamento, observação e sensibilidade pedagógica que se fortalece no dia a dia.
“A gente chegou plantando uma sementinha. Eu acho que precisamos, primeiro, ter uma escuta muito sensível, para trabalhar dessa forma. Essas propostas acabam nascendo através da curiosidade das crianças . Temos que estar atentos ao que elas trazem. Nessa pedagogia a gente enxerga a criança como um ser potente e protagonista e nós, como educadoras, somos mediadores”, explica ela.


A rotina das turmas é muito mais do que atividades, são experiências sensoriais, integração com a natureza e o mundo. No passeio até a fazenda Coser, os pequenos se aproximaram da vida no campo, tendo contato com os animais. Em uma grande aventura didática, aprenderam sobre como é extraído leite das vacas e puderam participar da ordenha.
Já explorando o mundo dos insetos, as crianças da EMEI Família Feliz fizeram um estudo profundo sobre as abelhas, desde a construção das colmeias até a produção do mel. Com olhares curiosos e ouvidos atentos, escutaram histórias, interagiram com imagens e objetos para facilitar a compreensão desse pequeno universo.
Ampliar a percepção também é importante nessa fase. Saber que existe um oceano de possibilidades mantém vivo o encantamento delas. A Caminhada Encantada promoveu exatamente isso, a sensibilidade e a conscientização do ambiente através dos detalhes que passam despercebidos. Em uma caminhada pelas redondezas da escola, utilizaram lupas para explorar elementos que encontravam no caminho.



No EMEI Pingo de Gente, o Berçario 1 conheceu texturas, cores e formatos ao serem apresentados à diferentes tipos de legumes. Examinaram cada um deles com muita atenção por meio dos sentidos, com calma e brilho no olhar.
Se os resultados revelam a essência de nossa proposta, é no cotidiano que o caminho se desenha. Questionamentos viram brincadeiras, descobertas ganham forma e, na simplicidade leve da infância, celebramos a certeza de estarmos construindo memórias, vínculos e aprendizagens que crescem em cada pequena vivência ao longo do ano. Que venham novas histórias para contar, pois educar é um processo vivo, que se renova a cada dia.