Na realidade contemporânea, marcada por profundas desigualdades sociais e pela escassez de oportunidades, a educação se afirma como um dos caminhos mais potentes de transformação. No Dia Internacional da Educação, celebramos também o legado de São João Calábria e sua contribuição para o mundo por meio de uma perspectiva pedagógica que, vivida e concretizada em sua Obra, segue impulsionando mudanças significativas na vida de milhares de beneficiários até os dias de hoje.
Mais do que um método de ensino, essa pedagogia reflete a forma de ser e de agir do fundador, perpetuada em uma ampla rede de solidariedade que promove o desenvolvimento de seres humanos livres, conscientes e capazes de exercer seu protagonismo com criatividade. Assim, cada pessoa é chamada a disseminar o bem na sociedade e a se tornar, na comunidade em que vive, um verdadeiro vetor de mudança social.
A Rede Calábria traz para as salas de aula, seja em seus cursos profissionalizantes, na educação infantil ou nos centros de convivência, uma forma única de fazer. Um método que assegura o desenvolvimento integral de seus educandos, potencializando suas capacidades para a superação de defasagens originadas das lacunas existentes em contextos de pobreza e vulnerabilidade social. A instituição enxerga o ser humano como um todo organizado e interdependente. É sob essa ótica que a espiritualidade e os valores necessários ao fortalecimento do caráter, bem como do espírito de cooperação e cuidado, são integrados.
Dentro dessa premissa, a Pedagogia Calabriana atua com uma abordagem humanizada. Não se trata apenas do desenvolvimento de habilidades técnicas, mas de competências socioemocionais fundamentais para vencer as adversidades que naturalmente se apresentam ao longo do caminho, seja na vida pessoal ou profissional. Os principais projetos educativos, para além da Educação Infantil, são a Educação Integral, o Impulso Educativo e o Construindo Futuros.


Educandos de Farroupilha/RS aprendem sobre o Sistema Monetário Brasileiro.
A presença e o cuidado que São João Calábria tinha para com as crianças foram a força motriz para o início da realização de sua Obra, culminando na criação da Casa Buon Fanciulli, em Verona, na Itália, que abrigava meninos em situação de abandono e negligência. Mas sua atenção ia além das necessidades materiais. Mesmo não tendo sido um educador de formação, inspirado por sua forte espiritualidade, construiu uma pedagogia centrada no amor incondicional e na presença contínua.
Com a chegada dos Pobres Servos da Divina Providência ao Brasil, no ano de 1961, em Porto Alegre/RS, a Rede começou a se formar. Hoje, conta com 20 escolas de educação infantil na capital gaúcha e quatro em Muçum/RS, atendendo, ao todo, 2.750 educandos diariamente no Rio Grande do Sul.
Acolher promovendo vidas, no contexto da educação, é ser um meio de oportunizar condições internas e externas favoráveis à aprendizagem. Sua base possibilita segurança para que as crianças sejam atuantes nesse processo. Isso vai ao encontro da metodologia Waldorf, utilizada em conjunto em suas escolas de educação infantil. Intitulada Pedagogia do Fazer e desenvolvida pelo filósofo austríaco Rudolf Steiner, essa visão é integrada de forma estratégica pela instituição.



Em Muçum/RS, as crianças da Educação Infantil vivenciam atividades que estimulam a curiosidade, o cuidado e a construção do conhecimento desde a infância.
A proposta busca aliar elementos culturais às atividades desenvolvidas com os beneficiários, partindo do princípio de que o educador não é o detentor do saber, mas aquele que cria um ambiente saudável e favorável para que o educando, junto a ele, descubra suas capacidades e as desenvolva de forma alinhada a um propósito e a um projeto de vida. Um ponto de vista que estimula a descoberta e a curiosidade para que sigam ampliando seus horizontes a partir da experimentação. Ela traz o contato com habilidades manuais, envolvendo desde a terra, a arte e outros ofícios. Oportuniza vivências importantes, que também fortalecem a força de vontade e a capacidade criativa que a atualidade exige.
Quando falamos da Pedagogia Calabriana, não podemos deixar de mencionar que ela une espiritualidade e técnica, fé e razão. Para isso, segue cinco passos inspirados em uma vivência pessoal muito marcante da vida de seu fundador. Essa passagem funciona como um símbolo que norteia todos os trabalhos realizados na Obra da Congregação dos Pobres Servos da Divina Providência em nível mundial.
“Quase onze horas da noite, João Calábria, cansado por mais um dia de trabalho, retorna à sua casa. Voltava do hospital, onde fora visitar um menino gravemente doente. A noite era escura e fria. Ao chegar ao portão, viu perto de sua casa um monte de trapos. O que seria? Inclinou-se sobre os trapos e, para sua surpresa, em meio aos trapos, havia um menino dormindo. Sacudiu-o suavemente. A pouca luz revelou um rostinho pálido, devastado pela fome, a pele arrepiada de frio e os olhos inchados de tanto chorar. Calábria reconheceu o menino: era o ciganinho que pedia esmola. – Me bateram, me batem sempre, me mandam trabalhar e dizem que não sirvo para nada. Hoje, depois de apanhar, consegui fugir e vim aqui pedir ajuda. Não sei para onde ir. – Levanta-se. Venha comigo, disse Calábria. E, tomando-o pela mão, acolheu-o em sua casa.” (GADILLI, Biografia oficial de São João Calábria, 1999)
O “Ver” é enxergar a realidade com clareza, sem preconceitos ou julgamentos, reconhecendo que cada história é única e possui valor. “Inclinar-se” convida-nos a colocar-nos em nível de igualdade com o próximo; ao partilhar a mesma perspectiva, rompemos as barreiras que nos distanciam e criamos vínculos sustentados pela empatia e pela compaixão. “Sacudir suavemente” expressa um gesto que equilibra firmeza e ternura, sempre em respeito à história pessoal de cada pessoa.
“Reconhecer” traz a ideia de valorizar as particularidades do indivíduo e, ao mesmo tempo, diminuir a distância que nos separa, compreendendo que todos somos irmãos e filhos de Deus. Já o “Acolher” é o resultado de todas as outras etapas. É a manifestação concreta do afeto, traduzida em atitudes que oferecem caminhos de esperança, capazes de redirecionar vidas e fortalecê-las em espírito de fraternidade e apoio mútuo.
Nas unidades, é comum que as turmas tenham um momento diário de acolhida ao chegarem para iniciar as atividades. Nesse espaço, são trabalhadas a escuta sensível, o diálogo e a partilha entre educadores e educandos. Em uma atmosfera acolhedora, muitas vezes tornam-se visíveis fragilidades que algumas crianças podem apresentar, permitindo que o educador atue como referência de cuidado, apoio e orientação pedagógica.
A acolhida é essencial e faz parte da rotina das unidades, em que, de 15 a 20 minutos, procura-se entender e preparar o grupo, harmonizando-o para as atividades que serão aplicadas no dia. É um espaço no qual se propõe uma conversa, um debate ou uma mensagem de espiritualidade, para compreender o momento e os sentimentos da turma.
No turno inverso às aulas regulares e com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento escolar dos educandos do 6º ao 9º ano, acontece o projeto Construindo Futuros. A iniciativa promove reforço escolar por meio de atividades de letramento e numeramento, ações de iniciação científica e práticas educativas, nas quais crianças e adolescentes desenvolvem habilidades técnicas e socioemocionais, além de serem estimulados à pesquisa e à resolução de problemas.
Vivian Knevitz, coordenadora do projeto, explica que a ideia é colaborativa. Nesse processo, ocorrem momentos de debate e assembleias para que as necessidades e os temas trazidos pelos educandos sejam ouvidos e trabalhados dentro do contexto pedagógico.
“A gente deseja que aquilo que estamos propondo enquanto atividade faça sentido para eles. E, para fazer sentido, a gente precisa ouvir, precisa entender quais são as demandas”, diz ela.


Na Semana do Hip-Hop, adolescentes do Construindo Futuros realizaram atividades sobre Grafite e aprenderam a operar uma mesa de mixagem.
O projeto é um estímulo para os jovens e sua participação ativa em seu próprio processo de aprendizagem. As propostas trazidas para dentro da sala de aula, que possuem a premissa de solucionar problemas reais, abrem caminhos para que educandos e educadores construam juntos o conhecimento.
Dentro das atividades práticas, o protagonismo dos jovens tem espaço para aflorar. A ementa contempla a construção desse conhecimento junto à capacitação de habilidades que eles podem levar para dentro das comunidades e de suas famílias, como forma também de geração de renda. No Construindo Futuros, há turmas de Social Media, Programação e Automação, Informática, Barbearia e Embelezamento, Padaria, E-sports e oficinas de criatividade e inovação.
“[Na Restinga] tem educandos da barbearia, por exemplo, que já estão usando o conhecimento. Já aprenderam a cortar um pouco, a fazer acabamentos e tal, e já estão aplicando ali no entorno onde moram. Até por uma questão de ganhar uma graninha”, explica Vivian sobre o impacto do protagonismo.
Quanto ao letramento e ao numeramento, são dimensões que permeiam diversos eixos do fazer calabriano. Presentes em diferentes ações e projetos, contribuem diretamente para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) estipulados pela ONU, sendo um deles a Educação de Qualidade. Por meio de atividades de voluntariado, idosos beneficiários dos programas socioassistenciais da Rede também participam de oficinas voltadas a esse fim, fortalecendo a inclusão educacional e o acesso ao conhecimento em todas as fases da vida.

Educandos do CPIJ participaram da Batalha de Barbeiros e mostraram todo o seu potencial e habilidades desenvolvidas nos projetos.
Surgido como resposta à situação emergencial da pandemia da COVID-19, o Impulso Educativo teve como objetivo apoiar educandos que tiveram seu desenvolvimento educacional gravemente afetado durante o período. Em parceria com o Instituto Jama, a solução foi implementada: prover um suporte personalizado e adaptado às necessidades específicas de cada um. Ao todo, foram 650 educandos impulsionados no ano de 2024 nas unidades da capital. Dentro desse número, estão incluídas 340 crianças, de 6 a 9 anos, e 310 crianças e adolescentes de 10 a 14 anos, grupos que compõem os atendidos dos Ciclos I e II.

Crianças do projeto Impulso Educativo executam trilhas digitais em sala de aula.
A iniciativa foi um sucesso, com 79% dos jovens atingindo avaliações satisfatórias de desempenho em letramento e 81% em numeramento. Os números refletem uma ferramenta inovadora no âmbito educacional. A aprendizagem gamificada tornou-se uma grande aliada. Monitores fazem o acompanhamento para auxiliar em eventuais dificuldades que os educandos possam apresentar, desde questões técnicas com os equipamentos até orientações sobre acesso a plataformas e utilização de softwares, tudo embasado na Base Nacional Comum Curricular (BNCC).
Funciona como um mapa de trilhas, em que o educando tem a liberdade de escolher qual irá realizar. Pensadas como um meio de impulsionar os estudos de maneira lúdica, elas possuem narrativa, plano de fundo consistente e alinhado ao universo infantojuvenil, trazendo histórias como Harry Potter e animações populares como Divertidamente.
Os exercícios e trilhas são criados a partir de reuniões e com base na observação dos educadores sobre o que agrega sentido para as turmas. A cada mês, uma temática diferente é abordada. Nessa linha, as decisões também são norteadas pela Teoria das Inteligências Múltiplas, de Howard Gardner.
Essa teoria afirma que não existe uma única forma de inteligência, mas nove tipos que podem ser desenvolvidos: linguística, lógico-matemática, espacial, musical, corporal-cinestésica, interpessoal, intrapessoal, naturalista e existencial. Assim, cada uma delas é trabalhada, uma por mês.
Para Laís Almeida, do Conselho Operacional da Rede Calábria, o grande diferencial não está unicamente no uso da tecnologia. Ela reconhece no conjunto dos fatores um enorme potencial; porém, o que o torna realmente eficaz é o propósito de cada trilha.
“É esse olhar direcionado para o que precisa ser feito, ao invés de ter muitas atividades de qualquer coisa. Se na questão do letramento a gente percebe uma dificuldade de interpretação de texto, a trilha vai ser interpretação de texto”, explica Laís.
A partir de 2026, o Impulso Educativo passará por uma ampla reformulação, mantendo, no entanto, o mesmo objetivo. A metodologia passará a ser implementada em parceria com a empresa Codifica, parceira do Instituto Jama e investidora do projeto.

Assim como o Centro de Educação Profissional São João Calábria (CEPSJC), o Centro de Promoção da Infância e Juventude (CPIJ) funciona como um grande complexo de projetos sociais. Na unidade, também acontecem os projetos Construindo Futuros, Educação Integral e Impulso Educativo. Como complemento fundamental ao ensino, a unidade oferece as modalidades de basquete e karatê, por meio do programa Esporte Promovendo Vidas, além de diversas oficinas que contemplam atividades musicais, artes, corporeidade e educação ambiental para os pequenos.
Este último aspecto, amplamente trabalhado com os educandos da Rede e fundamentado no princípio do cuidado com a Casa Comum, fortalece o senso de responsabilidade com o meio ambiente. Trata-se da incorporação de propostas educativas à formação consciente, por meio de ações concretas como hortas orgânicas, compostagem, cultivo de plantas e reaproveitamento de materiais por meio da reciclagem.
Em uma reflexão sobre como a Pedagogia Calabriana contribui para a ruptura de ciclos de exclusão social nas comunidades, a coordenadora do CPIJ, Nielly Pastelletto, compartilha sua percepção sobre a influência positiva perpetuada por esses valores. O impacto é percebido não apenas no comportamento das crianças, mas também reflete de forma clara nos responsáveis e nas relações de convivência.
“A partir do momento em que conseguimos transmitir essa forma de ver e lidar com a vida para as nossas crianças, isso se multiplica. Ao conversar com os pais, trazê-los para um diálogo de troca de ideias e cuidado, vamos percebendo também a mudança na postura deles”, conta Nielly.
A afirmação de São João Calábria, “A Obra é para os tempos atuais”, expressa a essência de um fazer que atravessa gerações, adapta-se a diferentes contextos e permanece fiel à sua missão. Ao longo da história, educar sempre foi semear possibilidades e cuidar de vidas. Nesta data especial, reafirmamos a convicção de que transformar o mundo começa todos os dias. É feito pela presença, pelo cuidado e por encontros que geram sentido e esperança em dias melhores.